AIMÉ CÉSAIRE
( 1913 – 2008)
BÁRBARO
É a palavra que me sustém
e golpeia a minha carcaça de couro amarelo
onde a lua devora no sótão da ferrugem
os ossos bárbaros
dos vis animais roedores de mentira
bárbaro
de linguagem sumária
e os nossos belos rostos como o verdadeiro poder
laborioso da negação
bárbaro
dos mortos que circulam nas veias da terra
e vêm partir às vezes a cabeça contra os muros
das nossas orelhas
e os gritos de revolta nunca ouvidos
que voltam à medida e aos sons de música
bárbaro
o artigo único
bárbaro o réptil branco
bárbaro eu a serpente cuspidora
que das minhas fétidas carnes acordo
subitamente lagarto voador
subitamente lagarto franjado
e colo-me tão bem aos próprios lugares da força
que devereis, para esquecer-me,
deitar aos cães a carne vilosa do vosso peito.
(de “Cahier d’un retour au pays natal”, trad. do francês de Manuel Simões)
Poeta, dramaturgo e ensaísta. Representou a Martinica no parlamento francês. André Breton, em 1943, atribuiu-lhe o título de “grande poeta negro”. É da profundidade da sua negritude que explode o seu canto, de raízes surrealistas, síntese de imagens da vida quotidiana da África de todos os tempos. Obra poética: “Cahier d’un retour au pays natal” (1939), “Les armes miraculeuses” (1946), “Soleil cou coupé” (1947), “Corps perdu” (com desenhos de Picasso, 1950), “Ferrements” (1960), “Cadastre” (1961), “Moi, laminaire” (1982), “La Poésie” (1994).
Depois dos dois ideólogos principais do conceito de negritude, seguir-se-ão os poetas africanos de língua portuguesa, começando pelos angolanos e precisamente por: José da Silva Maia Ferreira

