Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 118 – por Manuela Degerine

Partida

Imagem1Cheguei ontem ao Porto, comprei na Sé a Credencial, pedi albergue aos bombeiros, passeei pela Ribeira, mirei a cidade de um e do outro lado do rio… Hoje levanto-me às cinco e meia. Demoro quase uma hora a vestir-me, arrumar a mochila, recuperar a Credencial, agradecer a hospitalidade. Daqui por dois ou três dias a partida será mais rápida, pois os gestos haver-se-ão fixado, levarei contudo sempre meia hora a dobrar, embalar e arrumar os meus pertences. Penduro à chegada cada coisa na sua zona do beliche e à partida fecho-a num saco, sempre o mesmo, distinto pela cor ou tamanho, que arrumo na bolsa, nos bolsos ou no habitual sítio dentro da mochila. Posso assim de noite, na escuridão, encontrar aquilo de que preciso e, durante a caminhada, em qualquer lugar, em poucos segundos, alcançar cada objeto sem poisar a carga: suspendo a mochila no ombro e com o outro braço retiro o que procuro. Como nos albergues, à partida, pela manhã, não se acendem luzes na camarata por haver gente a dormir, a ritualização das bagagens, sempre as mesmas coisas, sempre penduradas no mesmo lugar, permite encontrar, arrumar tudo às escuras: os crocs, o bordão, a garrafa, o saco-cama, o impermeável, as calças, a camisola… E não perder nada.

 Há pelas ruas grupos barulhentos, gente jovem, alegre e simpática; devem vir das discotecas. Alguns berram: Bom Caminho! Será que os peregrinos entraram na rotina da cidade? Dirijo-me para a Sé enquanto vou comendo a primeira sanduíche e bebendo leite com cacau. Sinto-me em boa forma, feliz por começar a caminhar… Sonhei durante um ano com estes quinze dias de beleza, encontros e liberdade.

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