EDITORIAL – O SACERDÓCIO DA INFORMAÇÃO

Imagem2Compara-se muitas vezes o exercício abnegado e sério de algumas profissões a sacerdócio – a medicina e o jornalismo são duas das que mais vezes têm de suportar este elogio que é uma espécie de presente envenenado. Sacerdócio, à letra, significa o conjunto de funções dos que, nas religiões pré-cristãs tinham o poder de oferecer vítimas à divindade; representa no catolicismo, o poder espiritual dos clérigos e, na tal acepção mais abrangente, a entrega que médicos, políticos, jornalistas, artistas, fazem à prática das suas profissões ou cargos, pondo-as acima dos seus interesses pessoais. Porém, sacerdotes são também os padres pedófilos e os que se envolvem nos negócios escuros que percorrem os subterrâneos do Vaticano. Ñão se trata, pois, necessariamente de um elogio.

Uma politóloga espanhola, Ángeles Diez, numa conferência pronunciada há dias, deu mais um passo na dilucidação do poder corporativo da comunicação social – a ideia de que os media são uma arma que os poderosos usam para desencadear guerras e controlar o poder, peca por defeito – segundo àngeles, os media são por si próprios  o poder – e desenvolve uma série de argumentos a que havemos de voltar. Se analisarmos a natureza e a composição dos grandes grupos jornalísticos em Portugal, veremos que os interesses económicos atravessam transversalmente todo o espectro financeiro, com ligações a bancos, petrolíferas… O jornalista-sacerdote, sério, incorruptível, que leva a sua investigação até às últimas consequências, em que jornal, cadeia de rádio ou de televisão, conseguirá emprego? Prolifera um jornalismo fútil ou de falsa profundidade – aprofunda-se a verdade, e se for necessário, misturando-lhe mentiras, sobre algo ou alguém que se queira destruir. Mas há temas que são tabu e a esses não há sacerdotes que lhes toquem. Em «democracias» mais primárias, a verdade sobre a corrupção de dirigentes políticos é considerada traição, atentado contra a democracia, colonialismo. Não raro, os ousam denunciar crimes dos bandos que ocupam as cadeiras do poder, são assassinados.

Os tempos não estão bons para o exercício de sacerdócios – apenas uma ancestral função lhes é permitido conservar – a de entregar vítimas às divindades do poder.                                                                                                                                                                                                                 

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