Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Segunda Parte
(conclusão)
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Boehner já demonstrou ser uma espécie de liderança falhada e, de resto, bem semelhante à que aconteceu com o governo alemão durante a Primeira Guerra Mundial. No final de 1916, deveria ter ficado claro que a Alemanha não tinha meios para derrotar a enorme coligação entre a Rússia, a Grã-Bretanha e a França, dispostas a lutarem em conjunto contra a Alemanha, de tal modo que a paz era a única opção. Para assegurar a paz o chanceler, Bethmann Hollweg, poderia ter-se virado para o presidente Woodrow Wilson, que fez a mais dramática de uma série de propostas para ajudar as nações em guerra a alcançarem uma ” paz sem vitória”. Mas em vez disso, Bethmann rendeu-se ao Exército e à Marinha e empreendeu uma guerra submarina sem quartel, um passo que era quase certo traria os Estados Unidos para o palco da guerra. Wilson enviou o embaixador alemão, conde Bernstorff de vez para casa e Bernstorff contou a Bethmann que este poderia ter a paz dentro de um par de meses se a guerra submarina não começasse. Bethmann explicou que isso era impossível. Impossível, porque o povo alemão acreditava que com a guerra submarina poderia ganhar a guerra e, por isso, o governo não tinha escolha, tinha que fazer a guerra e não a paz… O resultado foi a derrota total da Alemanha, a queda do Império e, finalmente, a ascensão do nazismo.
Boehner está tão escravizado face ao Tea Party que este não lhe vai permitir que uma votação da Câmara para uma resolução permanente – que não vá retirar o financiamento de Obamacare – alguma vez venha a ser aprovada, uma resolução que passaria facilmente, embora com uma maioria na Câmara composta na sua maioria por democratas. Na quarta-feira ele teria tido a certeza de que alguns dos seus membros moderados lhe iriam permitir que se Boehner fizesse tal uma votação sobre o tecto da dívida ele poderia mesmo não vir a permitir que o governo entrasse em incumprimento. Outros relatos, no entanto, sugerem que tudo isto o incita a tornar-se ainda mais duro sobre o orçamento, porque ele não consegue forçá-los a ceder duas vezes de seguida, perdendo talvez a sua presidência. Por outras palavras, ele evidentemente tem que esperar até que a paralisação do governo provoque tantas dificuldades – e não se engana, pois está a provocar grandes dificuldades aos cidadãos comuns bem como aos trabalhadores federais – que o Tea Party perceba que eles tem que permitir que o governo assuma novamente as suas funções e sem em quaisquer condições.
O dilema de Boehner, no entanto, pode ser ainda bem pior do que isto. Eu não sei tanto quanto gostaria sobre a composição da House Rules Committee, que na verdade tem o poder de determinar quais as votações que são feitas nominalmente. O seu presidente, o republicano Pete Sessions do Texas , já tem um opositor do Tea Party nas próximas primárias. Se o Tea Party controla todos ou quase todos os membros da House Rules Committee,, ou seja da Assembleia dos Representantes, então Boehner pode não ser capaz de as manipular à sua vontade. Em qualquer caso, ele pode perder a Presidência da Câmara dos Representantes. Boehner não é um homem forte. Dicas surgiram ao longo do tempo de que ele é um alcoólico. Ele não é Lyndon Johnson , Sam Rayburn , ou Everett Dirksen – os líderes do Congresso que numa era distante trabalharam com os presidentes da parte contrária e para o bem dos Estados Unidos .
Os republicanos estão, obviamente, aterrados com a ideia de que Obamacare seja impossível de ser eliminada, uma vez que as pessoas se inscreveram para isso, como elas o estão agora a fazer. Esta dado pode ser o ponto de viragem para o Partido se insurgir contra o Tea Party. Por outro lado, se Boehner realmente não pode controlar a Câmara dos Representantes, os EUA podem entrar em incumprimento e forçar o presidente a assumir alguns poderes de emergência. Muito depende dos mais jovens líderes parlamentares, como Eric Cantor e Paul Ryan, que são aliás de extrema-direita, mas que não podem deixar de se preocupar com o futuro político de longo prazo do seu próprio partido. Enquanto isso, Ted Cruz estabeleceu-se como o demagogo mais popular entre os republicanos. Nunca os Estados Unidos enfrentaram uma crise com uma tão patética liderança na Câmara. O presidente Obama está, mais uma vez, a contar com o frenesim Republicano para que esta oposição se queime a si mesma. Vamos todos esperar que isto aconteça.
DAVID KAISER. The US, 2011-13, and Germany, 1930-33, texto publicado por Naked Capitalism, disponível em: http://historyunfolding.blogspot.pt/2013/10/the-us-2011-13-and-germany-1930-33.html
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Para ler a Primeira Parte deste artigo de David Kaiser, publicada ontem, dia 25 de Outubro, em A Viagem dos Argonautas, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/10/25/os-eua-2011-13-e-a-alemanha-1930-1933-por-david-katz/

