Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 120 – por Manuela Degerine

 

Japoneiras

Imagem1Perco-me antes de chegar à Torre dos Clérigos, pois é de noite, não vejo a sinalização, hesito se devo subir ou descer; já no ano passado aqui vagueei com esta dúvida. Enganamo-nos com frequência nos mesmos lugares, entre outras razões, por nos recordarmos de caminhar no sítio errado. Aparece uma senhora, diz-me que suba. Claro que devo subir… Tem lógica construírem a torre num sítio alto.

Chego à Rua da Cedofeita, vou seguindo em frente, antecipando o que me interessa, aqui uma casa com pinturas nos tijolos que entaiparam a porta e as janelas, além uma placa indicando distâncias, a seguir um alpendre em granito… Passo às sete e meia pela igreja dos azulejos na Rua do Carvalhinho, uma hora mais tarde pela de Araújo e sua inscrição em latim medieval: “Tu es Pedrus sed super hac petram edificabo ecclesiam meam”. Faço às nove uma pausa junto à Ponte de Moreira. Sentada no banco de pedra, como uma maçã, a segunda sandes, bolos de amêndoa… Tudo me sabe deliciosamente. Um sabor superlativo que evidencia as variações da minha subjetividade. A manhã está soalheira e, embora os passantes andem encasacados, eu despi a camisola polar, basta-me a blusa e o colete para a caminhada. Ciclistas e corredores gritam: Bom Caminho! Sim, os peregrinos fazem aqui e agora parte da ordem natural do mundo.

Abundam neste tempo e neste espaço as camélias gigantes, os rododendros cor de fogo… Habituada a vê-los cobertos de fungos na região de Paris, por o terreno e a temperatura não os favorecerem, espanto-me com as dimensões que agora observo – e com a profusão das flores. (As camélias adotaram nesta região o nome de japoneiras; o exotismo fica-lhes bem.) Nas escadas, varandas, terraços há muitas orquídeas. E até o mais esquecido dos muros tem feto, musgo, líquen, sedum, variadas plantas suculentas… Noto um alguidar com flores cortadas à porta de um pátio.

– Mas vai sozinha?…

Garanto que, a partir de Vilarinho, irei acompanhada, o que não é mentira; haverá inúmeros caminhantes. Noutro quintal andam ainda a podar a vinha. Vou passando por Gemunde, Mosteiró, Vilar…

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