No ano passado, quando abri a porta, vi um homem e reparei, num centésimo de segundo, que não era bem vinda porém, de repente, ele fixa os meus pés e solta um berro:
– Temos botas da mesma marca!
A partir daquele instante mostrou-se muito acolhedor.
Mais tarde apareceram três franceses que se instalaram no ginásio, sentei-me a conversar com eles num banco exterior, mas a meio da tarde voltei ao albergue com a intenção de escrever, debalde pois o meu vizinho regressava no dia seguinte a Lisboa, de onde partiria para os Estados Unidos, falou de Chicago, pôs-se a contar o Caminho de Santiago, mostrou fotografias de peregrinos, dos albergues onde dormira, dos restaurantes onde jantara, enumerou todos os preços, criticou isto, aquilo e aqueloutro, à evidência só ele usava a cachimónia… Estava calor, o sol brilhava lá fora, ele queria a porta fechada: por causa das moscas. A certa altura inquiriu se eu andava armada.
– E se te atacarem?
– Duvido que a arma ajudasse… E é pesada, não é? Trago o equivalente em chocolate suíço.
– Qualquer tipo ataca-te, tu não te defendes?
– Tu defendes-te como?
– Mato-o!
O indivíduo não apanhara o avião com um revólver, portanto não devia percorrer o Caminho com uma arma. A sua atitude continuava normal, embora se mostrasse fanfarrão, transpirasse esperteza saloia, proclamasse feitos e refeitos, falasse não só pelos cotovelos mas pelos braços, antebraços e mãos; porém a partilha do espaço impõe o convívio e quem deseja silêncio vai para um hotel. Não é o meu caso… Situo a observação do género humano entre as três primeiras motivações para estas caminhadas.
Passava das oito, o americano calara-se, eu adormecera, bateram à porta. Ouvi do outro lado:
– Não abras!
Era de noite, o albergue mais próximo, em S. Pedro de Rates, encontrava-se a treze quilómetros, três horas por trilhos que eu conhecia, pedregosos, lamacentos, onde as setas não seriam visíveis – e restavam ali duas camas. Saltei do beliche. O americano jazia mais longe, a solidariedade era-lhe inconcebível: antes de ele poder reagir haviam entrado dois alemães. De imediato se deu o confronto – berros, insultos, ameaças, gestos intimidantes – por os recém-chegados decidirem ali pernoitar, tinham-no acordado, era decerto verdade, faltava espaço para quatro, uma patente mentira… Depois ninguém conseguiu dormir, nem sequer eu, que me mantivera imperturbável pois, não só me queria demarcar daquela violência mas, no anunciado massacre, na carnificina final, entre tripas e sangue, me sabia protegida pelas botas… Uma lógica para mim confortável.
Às cinco horas o americano pegou na mochila, bateu várias vezes na porta metálica, citação da quinta sinfonia na noite campestre, simulacro de banda sonora para um desenho animado… Nós esperámos um pouco e, quando o vimos caminhar na rua, demos uma gargalhada e também arrumámos a bagagem.
Nos dias seguintes, até Valença, acompanhei os alemães tanto no caminho como nos albergues. Tinham mantido o equilíbrio na crista da onda; e mostravam-se bem educados nos espaços coletivos, comportamento que os seus compatriotas não exibem com uma frequência importuna. Depois a tendinite obrigou-me a percorrer menos quilómetros por dia, enquanto eles prosseguiam no mesmo ritmo, mas voltei a encontrá-los em Padrón: regressavam a pé. Revelaram-me que outro alemão, dias antes de passarmos em Vilarinho, já aqui havia encontrado o americano. E esta?… (Seria de estranhar que o de Santiago fosse o único caminho onde não circulassem loucos.)