A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 22 – por Sérgio Madeira

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Lourenço Marques, Junho de 1973

Há homenagens toponímicas que resultam mal. Em Lisboa, a homenagem a António Maria Cardoso, oficial da marinha e cientista distinto, deu nome à rua mais odiada da cidade, aquela onde foi instalado o quartel general da polícia política. Em Lourenço Marques a homenagem a Joaquim de Araújo, resultara na chamada “rua das putas”. Rua Major Araújo, Rua Araújo, para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas brancas.

Alguém dissera – «Quando um lisboeta sonha com Las Vegas, nasce um Cais do Sodré. Se pensar na Broadway, nasce um Parque Meyer». Tem graça, mas peca por inexacto – o Cais do Sodré e as suas alfurjas é mais antigo do que a cintilante Las Vegas. O dito podia aplicar-se à Rua Araújo, a Sodoma de Lourenço Marques. Talvez a analogia não deva fazer-se com a cidade do deserto do Nevada. Com as suas construções de dois andares e as arcadas fizesse lembrar vagamente  o Bairro Francês de New Orleans.  De dia tinha um ar doméstico – com prostitutas e proxenetas a dormir – à noite explodia em cores de néon em odores de liamba, em gritos roucos.

Na cidade grande, alguém recebera um telefonema lacónico («Ele chegou e foi para a Rua Araújo»). Passado pouco tempo, alguém percorria com  calma os locais mais animados o Bar Texas, O Central,, Dancing Aquário,  Dancing Submarino, Bar Pinguim…  Foi no Pinguim que alguém  encontrou quem procurava.

 Sentou-se, pediu uma cerveja e observou. Havia pouca clientela, só mais para a noite as coisas animariam. A hora das babalazas não chegara ainda.  Numa mesa, porém havia animação.  Um português de baixa estatura, meia idade, robusto, sorridente contava histórias. Um negro mais jovem e quatro  raparigas, uma branca, duas mulatas e uma negra, davam gargalhadas no final de cada história. O observador, tirou um livro de um dos bolsos da balalaica e pareceu alhear-se de tudo.

Uma hora e muitas cervejas depois, o contador de histórias levantou-se e dirigiu-se aos lavabos. Em frente do urinol, tomou consciência de que estava um pouco tonto. Doía-lhe levemente a cabeça – «Não vou beber mais cerveja», disse para si a meia voz. Alguém, muito perto,deu razão:

– Não, não vai beber mais cerveja, inspector Câncio.

O atávico prurido de mostrar o pénis que acabara de sacudir e se preparava para recolher, impediu-o de se voltar completamente. Outro instinto, este profissional, levou-lhe os dedos ao sovaco onde sob o blazer de linho se albergava uma velha Savage calibre 45. Um jovem alto e magro, de óculos escuros, estava junto dele. Câncio franziu os olhos, num esforço para se lembrar. Esquecido o pudor, a mão continuou o seu caminho para o sovaco. O rapaz sorria. E  sorria ainda quando na mão enluvada surgiu uma faca de lâmina comprida.

A faca entrou no coração de Câncio..

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO – MEMÓRIA DE UM OUTONO

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