O caso de Edward Snowden merece que se reflicta sobre ele, muito para além da situação pessoal do ex-colaborador dos serviços secretos americanos. Obviamente que a pessoa em particular vai ser muito afectada, ao longo da sua vida, pelas consequências do seu gesto. Terá de velar pela sua segurança pessoal muito cuidadosamente, pois não faltará quem o queira prejudicar, a partir de vários quadrantes, e de diferentes maneiras. Mas as implicações vão muito para além do caso individual.
Ao mais alto nível uma das questões que terá sido afectada pelas revelações de Snowden foi o tratado de comércio livre entre os EUA e a União Europeia. A constatação de que até os principais lideres europeus estariam a ser regularmente escutados ou a ter o seu correio lido por pessoas que não os destinatários levantou uma vaga de suspeições. Para além das gravíssimas infracções éticas e legais ocorridas, quantas questões fulcrais para a vida dos diferentes países terão sido deste modo dadas a conhecer? Obviamente que as eventuais negociações para aquele tratado terão de ser postas numa base diferente, tendo em conta que uma das partes ficou em vantagem, na medida em que conseguiu um grau de conhecimento maior em relação à outra parte. Aquele tratado de comércio livre (free trade agreement) vem sendo pensado desde há alguns anos, e é impulsionado pela alta finança que assim pensa garantir maior liberdade de circulação e uma maior desregulação da economia. Obviamente que traria grandes vantagens para os Estados Unidos, que ainda hoje têm a maior economia mundial, estão a lançar um processo de reindustrialização e, sendo um estado federal, impõem dificuldades específicas no que respeita à circulação de bens e mercadorias. Na Europa, o único país que parece capaz de uma competição séria, como é sabido, é a Alemanha. O Reino Unido tem a City, o maior financeiro mundial, e é por causa deste que o governo Cameron apoia o tratado (ver o primeiro link abaixo. O segundo dá um ponto de vista diferente do oficial, que se pode ler com interesse). Os países periféricos da Europa ficariam numa desvantagem ainda maior no que respeita àquilo que se costuma designar por competitividade, as suas economias num estado ainda mais vulnerável, e as consequências políticas seriam muito graves.
Não faltará quem procure atribuir a situação a uma conspiração, atribuindo a Snowden um papel maior ou menor. Mas para quem tem presente a forma como foram aprovados os tratados europeus, com escassíssima participação das populações, e, em alguns casos, indo mesmo contra os resultados de referendos efectuados, compreenderá a importância de haver mais luz e maior participação nesta matéria, de modo a que um tratado desta dimensão não seja negociado apenas nas altas esferas, tão longe da vontade (e da vida) das pessoas.
http://www.theguardian.com/politics/2013/jan/01/david-cameron-free-trade-agreement-g8
http://jubileedebt.org.uk/press-release/eu-and-us-trade-deal-increases-risk-of-financial-crisis

