EDITORIAL: DIREITA E ESQUERDA

Imagem2Ouve-se com alguma frequência dizer que já não faz sentido a dicotomia esquerda/direita. Políticos profissionais, comentadores e analistas políticos, politólogos, gente com responsabilidade dizem-no aberta ou discretamente. O fim do conceito de esquerda e direita, a extinção do conceito de classe, são coisas que interessam à direita e à falsa esquerda. O «fim» dos dois conceitos, já era, desde há anos, tema de discussão por essa Europa. Em 1994 foi publicada a edição portuguesa de um ensaio do italiano Norberto Bobbio, Direita e Esquerda (Destra e Sinistra), com o subtítulo Razões e significados de uma distinção política. Diz Bobbio: «Os dois conceitos – «direita» e «esquerda» – não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas do universo político. São locais do «espaço» político, representam uma determinada topologia política, que nada tem a ver com a ontologia política: Não se é de direita ou de esquerda, no mesmo sentido em que se diz que se é «comunista», «liberal» ou «católico». Por outras palavras, «direita» e «esquerda» não são termos que designam conteúdos definitivamente assentes. Podem designar conteúdos diferentes, de acordo com as épocas e as situações».

José Saramago,  num artigo publicado em 2007 no  ‘La Republica, fazia um balanço pessimista – “A direita nunca deixou de ser direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. […] Para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita política e económica já instalada que não tinha necessidade de se camuflar de centro. Entrou-se, então, na farsa carnavalesca de denominações caricaturais com as de centro-esquerda ou centro-direita.”. Dissemos que a visão de Saramago era pessimista. Talvez fosse, mas as coisas passaram-se como ele diz.

E é nesse pressuposto que Bagão Félix e Cavaco Silva apresentaram quase em simultâneo uma solução para o problema da política nacional – um governo dos três partidos neo-liberais. A ideia faz todo o sentido, sobretudo se a questão é analisada da perspectiva da direita, como é o caso de ambos os proponentes. Um governo onde se concentrassem todos os que defendem para o nosso País políticas como as que têm sido as dos últimos executivos seria benéfica para a direita.

Bagão Félix defende um Governo que inclua três partidos: PSD, PS e CDS. Numa entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, o antigo ministro das Finanças qualificou o guião apresentado por Paulo Portas como “um memorando de entendimento doméstico”.Por seu turno, o presidente da  República lembrou que “Portugal está a viver uma grave crise política” e que num  quadro desta gravidade” todos têm de actuar de forma ponderada. Por isso, propôs um “compromisso de salvação nacional” a ser assente em “três pilares fundamentais”: eleições antecipadas após Junho de 2014, apoio dos três partidos ao actual Governo e apoio dos mesmos ao Governo seguinte.

Dissemos que um governo dos três partidos neo-liberais faria sentido. Porém, por outro lado, seria o fim desta commedia dell’arte  que é representada em intenção dos cidadãos, convertidos em papalvos – PSD e PS digladiam-se aparentemente – direita e “esquerda”. A proposta de Cavaco e Bagão Félix iria desmascarar o PS. E, afinal, o espectáculo tem de continuar.

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