Capítulo vinte e cinco
Porto Santo, tarde de 16 de Abril
Ao entrar na segunda semana de férias, António começava a sentir os benefícios do exercício, da alimentação regrada, da ausência do fumo. Nessa manhã, notara, com um certo orgulho, que os pulmões, limpos de tabaco e inundados pelo ar seco, respondiam muito melhor ao esforço que lhes pedia naqueles mais de seis quilómetros de marcha acelerada desde o hotel até à extremidade Oeste da ilha. O coração, não parecia já querer estoirar, como acontecia antes sempre que acelerava o passo ou subia mais apressadamente uma escada. Adquirira um ritmo harmonioso, como o ronronante trabalhar de um motor de baixa rotação. Sentia-se bem. Vindo da Capitania e do desagradável contacto com o inspector Ramos, contara a Cecília o que se passara. Ela comentou:
– O Alfredo sempre me pareceu estranho…
– Estranho? Estranho como? –
– Fechado, com segredos…
– Qual quê! A única coisa estranha no Alfredo é o benfiquismo.
– Ora, lá estás tu…
Mas a conversa não prosseguiu, pois o motorista do táxi, o senhor Fernando estava na recepção do hotel para levar Cecília ao cabeleireiro. António pediu uma água tónica e ficou a meditar no que Cecília dissera. Tentou ligar para o Alfredo, mas a chamada foi encaminhada para o voice mail. Beberricando lembrou-se de como reencontrara o Alfredo Nunes que perdera de vista durante uns anos depois das guerras na Universidade.
Fora em Oeiras, na madrugada de 24 para 25 de Novembro de 1975. António estava em casa a ver a televisão, a ouvir a rádio, a ler os jornais da tarde anterior. Nem pensar em dormir. A mãe e o pai já dormiam há muito. Estivera ao telefone com Cecília, sua namorada desde há anos. Mas não se queria ir deitar, tinha o pressentimento de que ia ocorrer qualquer coisa de importante. A corda estava esticada ao máximo. O comício do PS, na Fonte Luminosa era o sinal de que a esquerda moderada, social-democrata, neo-liberal, não suportava mais o circo que a extrema-esquerda montara desde a Revolução. O PCP era ainda mais radical na condenação dessa esquerda, se pudesse eliminá-la-ia mesmo fisicamente. Foi então que recebeu o telefonema do Arnaldo Lima. O A>rnaldo não está com tempo para conversas – Quer que ele vá já a Oeiras (junto da esplanada). «- Mas são quatro da manhã!.. – disse António. «Eu perguntei-te as horas?» – respondeu o Arnaldo. – «Dentro de um quarto de hora na esplanada da rotunda(– e desligou.
António recorda os pormenores .Como estava de pijama, vestiu roupa prática, desportiva, enfiando um sobretudo por cima. Tentou sair sem acordar os pais. Quando passava pela porta do quarto deles, ouviu o pai tossir. Não chamou o elevador, para evitar o ruído. Chegou à rua. Noite fria, de lua cheia, bonita apesar de tudo. No carro, pôs-se na esplanada em minutos. Junto à estrutura metálica do café, estava Arnaldo, equipado a rigor, camuflado, botas da tropa. «Deixa aí o teu carro. Vens no meu». António não conseguiu fazer mais perguntas, pois Arnaldo sentou-se ao volante de um Mercedes negro e abriu-lhe a porta para que entrasse. No banco de trás apinhavam-se quatro ou cinco tipos com uniformes de campanha. Um deles, saudou-o «Olha quem é ele!,,,» . E o Alfredo Nunes deu-lhe uma palmada no ombro. ..
– Aqui lhe trago, sr. doutor, uma esposa nova – o senhor Fernando apontava uma Cecília com um cabelo estranho. Louro com madeixas. Sorrindo, parecia esperar com espectativa a opinião do marido. António que tinha na ponta da língua a pergunta «O que fizeste ao cabelo?», resolveu inverter a marcha:
– Estás linda! – e assobiou apreciativamente.
–
Episódio do hospital da Parede.

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