JÚLIO MARQUES MOTA APRESENTA “OS GORROS VERMELHOS”, de JACQUES SAPIR, SOBRE A SITUAÇÃO NA BRETANHA.

bretanha - II

Da violência na Bretanha à violência do modelo alemão tão aplaudido em Portugal

E não me imaginava intelectualmente tão perto desta Igreja, deste bispo.

Podemos criticar o euro e a sua arquitectura e fazemo-lo constantemente. Simplesmente não o podemos fazer de forma apressada e, se tal acontece, é então por erro não intencional. Um exemplo do que acabamos de afirmar surge com este texto. A Bretanha esteve há mais de uma semana a fazer lembrar os tempos de revolta que precederam a revolução francesa. O governo francês face à convulsão social fortíssima que se avizinhava recuou nas medidas que estaria a impor, sobretudo a ecotaxa que penalizaria as produções da Bretanha, desfavorecidas face à concorrência. No caso, sobretudo a fileira de criação e abate de porcos. Ora no texto muito bom que aqui se apresenta, é um texto de Sapir e está tudo dito, diz-se o seguinte:

“O que se chama a crise no sector dos suínos é o resultado de um dumping selvagem pela Alemanha abrigada atrás do Euro. Este dumping está a devastar a Bretanha.”

 No final do texto diz-nos ainda Sapir:

“Contudo, as soluções estão ao alcance da mão do governo. A primeira delas é, naturalmente, a dissolução da zona Euro seguida de uma desvalorização que sozinha pode restaurar a competitividade para a sua indústria e para a economia francesa”

E a pergunta a fazer aqui é; como é que estamos perante um dumping selvagem da Alemanha, numa produção intensiva em mão – de-obra não especializada? Subsídios? Não, porque se assim fosse o autor teria falado nisso. Mais, sendo as tecnologias utilizadas, tecnologias banalizadas, pois a criação e abate de porcos não irá variar muito entre os dois países, onde é que estará então o dumping? Nas reduções de margens normais de lucros? Não, porque se assim fosse o autor teria falado no assunto. O facto de se estar perante preços maios baixos não significa automaticamente dumping, com os diabos. Mão-de-obra emigrante? Também não, porque dessa a Europa está cheia e não haveria razão nenhuma para ser barata na Alemanha e cara na Bretanha. É evidente que o abandono do euro simplificaria a questão, daria à França uma ferramenta adicional contra a concorrência dita selvagem da Alemanha. Mas seria necessário ir por aí? Talvez não, mas uma coisa é certa, seria necessário e primeiro que tudo explicar de onde vem este dumping. Como nada me era dito e insatisfeito com a explicação, não com a conclusão curiosamente, escrevo a Philippe Meurer e ao autor Jacques Sapir. E a resposta não se fez esperar e dos dois. O dumping vem da inexistência de salário mínimo na Alemanha, dos baixos salários pagos aos trabalhadores de Leste na Alemanha…:

“Le dumping sauvage de l’Allemagne, c’est embaucher à des salaires de 3 à 6 euros dans les abattoirs allemands par exemple des salariés de l’Est…

Comme les salariés bretons de Gad sont payés beaucoup plus (salaire horaire minimum de 9,36 euros) et que le travail d’abattoir  est très couteux en main d’œuvre, les abattoirs Français font faillite les uns après les autres»  ou ainda :

« L’Allemagne pratique un dumping salarial car elle n’a pas d’accord national pour un salaire minimum. Les salariés de la filières agro-alimentaires peuvent être payés de 600 à 700 Euro/Mois alors que 1050 Euros est le minimum légal en France »

bretanha - I

Curiosamente, fomos ver o que nos diz o patronato francês: Eis-nos pois perante a realidade pura e dura. Dizem-nos do patronato  francês:

A indústria francesa de carnes apresentou na quarta-feira, uma queixa junto da Comissão Europeia, acusando a Alemanha de dumping social nos seus matadouros, disse, na sexta-feira, Pierre Halliez, director da União das empresas francesas de carne (Sniv-protecção SNCP). (…)

Há nos matadouros alemães um recurso massiço ao trabalho estrangeiro, vindo especialmente da Polónia, da Hungria, da Roménia, da Bulgária, da Ucrânia, e até mesmo da Rússia, a taxas salariais extremamente baixas e inferiores às dos trabalhadores alemães.

Esta prática cria “uma distorção da concorrência extremamente importante no mercado de carne e que favorece os operadores alemães,” lamentou. A Comissão Europeia disse que a queixa ainda não está registada até hoje.

“Nós apresentámos uma queixa, por ausência do Estado francês, contra a Alemanha. “Acusamo-la de não fazer respeitar nas suas empresas a legislação alemã, que é em si-mesma a transposição do direito comunitário”, disse Pierre Halliez.

Leia mais em http://www.lafranceagricole.fr/actualite-agricole/viandes-la-filiere-francaise-accuse-l-allemagne-de-dumping-social-37399.html#RJRQQ1G4Eri5rxbw.99

Sublinhamos aqui, a expressão por ausência do estado francês e já agora, do alemão igualmente. Este é o modelo neoliberal em vigor na Europa, o poder dos mercados desregulados, sempre mais à frente que a própria Comissão Europeia, na destruição dos mecanismos de protecção ao trabalho, banalizável este como mercadoria e tanto mais quantos forem os milhões de trabalhadores migrantes a deambularem por esta Europa à procura da sai dimensão de seres sociais e esta passa, necessariamente, por se ter trabalho, por se ter trabalho mesmo que barato!

Exageramos? Sobre este assunto, vejamos ainda ligado à Bretanha, à Europa em geral, em particular a Bruxelas e a Berlim, o que diz o bispo de Vannes, Mgr Raymond Centène, em texto disponível, por exemplo, em http://www.chretiensdanslacite.com/article-l-eveque-de-vannes-au-secours-des-bonnets-rouges-120864224.html   :

Este apelou  às  gentes da Bretanha de “manifestarem  concretamente a sua solidariedade com estes trabalhadores que agora são ameaçados com   a precariedade e o desemprego ” e apelou , especialmente, para participarem na grande manifestação do dia 2 de Novembro, a fim de” salvar  uma Bretanha que está à beira da asfixia”.

«”Em 2013, como em 1675 aquando a Revolta dos Gorros Vermelhos, são as mesmas razões  que levam os nossos compatriotas  a se revoltarem : o trabalho – o seu trabalho – é para eles fonte e sinónimo de identidade e dignidade”, diz-nos o bispo de Vannes. “O sobressalto salvador da sua identidade e da sua dignidade é, sem dúvida, o que melhor a sua revolta e a sua forte determinação”

Aos seus olhos,  “as crises sociais e económicas que dividem e opõem desde há  vários anos os franceses aos seus governantes são em parte devidas  à ignorância ou negação do que deve ser uma verdadeira acção política: uma atenção, não só ao interesse geral, mas especialmente também ao  “bem comum”, isto é, ao  bem de todos os homens e de todo o ser humano: o homem, a mulher, as crianças, não podem ser reduzidas a objectos de um consumo egoísta, da mesma forma que não podem ser  reduzidos à escravidão  por um ultraliberalismo selvagem e agressivo que não consegue sequer controlar um estado enfraquecido, que voluntariamente se submeteu  às directivas da União Europeia ultraliberal”.

A Igreja bem mais dura do que nós . Mais gente a demonstrar que a  Europa social que se estava a fazer durante décadas  tem sido com Durão Barroso e a sua Comissão, a mais reaccionária de que há memória, como me dizia um Conselheiro do Estado francês, tem estado a ser destruída peça a peça e é nessa destruição que se situa igualmente a destruição do euro que tem estado em marcha. Daí a compreensão da parte final do texto de Sapir em se querer situar fora do euro, mas isso significa também que é devido a abandonarmos os mecanismos de luta de classes possíveis no quadro comunitário. Curiosamente é o patronato francês, porque atingido, que levanta a questão da defesa dos trabalhadores a trabalhar na Alemanha!

Ironia amarga desta história, portanto. E não me imaginava intelectualmente tão perto desta Igreja, deste bispo.

Júlio Marques Mota

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Amanhã, também às 13 horas, sai em A Viagem dos Argonautas o texto de Jacques Sapir  Os Gorros Vermelhos.

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