A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 26– por Sérgio Madeira

 POR LAPSO DE AGENDAMENTO,  NÃO PUBLICÁMOS O CAPÍTULO 26, O QUE FAZEMOS HOJE PEDINDO DESCULPA AOS LEITORES.

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Capítulo vinte e seis

A Operação Shelltox teve consequências que se prolongaram por meses, anos, décadas – aos poucos, a imprensa internacional foi revelando pormenores daquela terrível acção punitiva das forças portuguesas contra uma aldeia da qual talvez partisse alguma ajuda aos guerrilheiros da FRELIMO, mas onde a maioria dos aldeãos estava inocente de tal acusação. Contou-se que das pilhas de mortos, se retirou uma criança de colo viva; contou-se que um padre dominicano que assistira ao massacre escrevera um extenso relatório que enviara às Nações Unidas. Jornais como o The Times, o New York Times, o Le Monde, o Corriere della Sera, foram trazendo à luz do dia o que se passara. Em Junho de 73, o aparecimento do cadáver de um inspector da polícia política na casa de banho dos homens do dancing Pinguim deu lugar a algumas especulações, embora ninguém tenha estabelecido uma relação entre o assassínio e o massacre de Xuvalu. Sabia-se que o inspector assassinado interviera na Operação Shelltox. Houve quem atribuísse o assassínio à FRELIMO. Um comunicado do COREMO, enunciando os crimes do inspector Câncio e exultando com a sua morte, «um acto de justiça», dizia o panfleto, desviou as suspeitas para o Comité Revolucionário de Moçambique.

O capitão Gilberto Alves foi chamado a Lisboa onde, no Estado Maior,  um general iracundo o criticou superficialmente  pelo massacre, «desproporcionado» disse repetidamente o general. Nas camadas mais profundas da prelecção, havia uma acusação – por que deixara sobreviventes? Alves lembrou que a polícia política é que conduzia a operação. O homem devia estar informado da divergência quanto ao «tratamento» que Câncio queria dar ao padre. Mas Gilberto Alves remeteu-se a um formalismo dentro do qual assassinar um padre era incompatível com qualquer interpretação que se quisesse fazer da ética militar. Foi promovido a major e transferido para um lugar burocrático em Lisboa.

O tenente Guilherme Lopes teve uma sorte diferente.

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