Tenho constactado que o que tenho escrito sobre “crianças selvagens” e alguns dos exemplos conhecidos, têm motivado várias leituras, o que indica que este assunto é algo que inquietas as pessoas, as choca, questiona…
Um recente caso se veio juntar a este conjunto. Por ter ocorrido no ano de 2013, num país em que há leis bem específicas para a protecção das crianças, ainda nos choca mais. Refiro-me a uma criança encontrada na bagageira de um carro.
A criança estava impedida de se movimentar, coberta por fezes, lixo e urina, mal alimentada, desidratada…Todos os direitos sem serem cumpridos!
É espantoso o comentário que vi em notícias de que “As autoridades não encontraram, no entanto, sinais de violência”. Há maior violência do que esta, de impossibilitar a criança de viver em todas as condições de se desenvolver adequadamente? Violência não é só agredir fisicamente. Esta criança foi agredida em todos os aspectos da vida de uma pessoa.
Segundo notícias, a mãe terá ilibado o marido de qualquer responsabilidade, afirmando que ele não sabia da existência da criança e ter escondido a gravidez e o parto da família e vizinhos. Os vizinhos dizer estar incrédulos.
A restante família vivia numa moradia. outros três filhos, uma menina de quatro anos e dois rapazes de nove e dez anos, foram entregues aos serviços sociais e colocados numa instituição. O pai foi encontrado o português alcoolizado e negou ter conhecimento da existência daquela filha,
Irão ser acusados de três crimes, um deles de violência habitual sobre menores, incorrendo numa pena que pode chegar a dez anos de cadeia
O bebé que se calcula que tenha entre 15 e 24 meses, sofre de graves atrasos no seu desenvolvimento motor, não fala nem anda, e os médicos ainda não sabem se poderá recuperar do atraso físico, mental e psicomotor.
Se esta criança for inserida num ambiente contentor, caloroso, securizantes, com boas figuras de referência e estimulações suficientes, poderá vir a ultrapassar o traumatismo por que passou? Até acredito que venha a andar, falar alguma coisa, mas o que nunca poderá ser compensado é o que se passa na relação mãe-filho, na vinculação que é necessária ser estabelecida, no olhar que é devolvido à criança e faz com que construa a sua vida interior, se sinta como um ser único no mundo, primeiro em união especial com a mãe e depois separando-se e percebendo que é um outro que irá fazer o seu caminho como um ser autónomo.
Até o procurador do Ministério Público afirma que «será muito difícil compensar as deficiências graves»..

