O céu parece desenhado a carvão, a bruma esconde parte da serra, cai de vez em quando uma chuvada… Coloquei o impermeável por cima de mim e da mochila em Barcelinhos, resulta a silhueta corcunda à qual os habitantes já se habituaram, com ele hei-de passar todo o dia, porém o Caminho segue por trilhos trinantes (os pássaros cantam à chuva), as estradas atravessam campos roxos e embora, quando mais chove, a visibilidade diminua, embora algumas veredas se tornem levadas ou lameiros, embora a caminhada seja assim mais cansativa, o jasmim perfuma vilas e aldeias, os limoeiros expõem frutos dourados, as couves são um alinhamento flórido, soberbo é o granito das casas, das igrejas, das capelas, das vinhas, das paredes, das calçadas, das lajes verticais a servir de muro…
Eu própria sou uma vontade irrepressível de cantar. Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito, amor, mas não pode ser, moro em Jaçanã, se eu perder esse trem que sai agora, às onze horas, só amanhã de manhã… Entoo – cá para mim – a canção como se fosse Carlos do Carmo, como se fosse Billie Holiday, como se fosse Jacques Brel, quase me ponho a sapatear, avanço na euforia desta paisagem, comovida com a sua beleza, consciente da minha liberdade… Feliz. Ultrapasso e sou ultrapassada pelos alemães e americanos que conheci no albergue da Portela. Bom caminho!
Após a humidade, não só de ontem, não só de hoje, de todo este inverno molhado, desta remolhada primavera, os verdes atingem tonalidades ora pungentes ora exultantes; para mim exaltantes. Verdes são os campos da cor do limão, canto como se fosse José Afonso. Estamos no princípio de abril, a primavera atrasou-se este ano e, por enquanto, predominam de facto o verde e o amarelo completados, aqui e além, por algumas flores de borragem e outras de um lilás mais escuro; estas produzem efeito estético mas sei, por as perseguir no quintal da minha mãe, nas Sarzedas do Vasco, extremamente invasoras: retiro-lhes, sem chegar à extremidade, raízes de vinte centímetros. Por enquanto as papoulas não passam de uns botões que vergam a haste… Sem dúvida por estar a chover, ninguém trabalha no campo, mas encontro uma senhora vestida de preto com mala, guarda-chuva, sacos de plástico, diz que foi ao médico, enumera a lista das suas mazelas, as dores nos pés, as dores no joelho, as dores nos rins, as dores de cabeça… É a Senhora das Dores. Reparo na felicidade – efémera – de eu ir aqui com olho vivo, pé ligeiro, papoulas e malmequeres. “Je chante, je chante soir et matin, je chante sur mon chemin”… (Canto que canto: como se fosse Charles Trenet.). Atravesso na Ponte das Tábuas o rio Neiva, entro com grande surpresa em Balugães. Já caminhei metade da etapa?