Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 133 – por Manuela Degerine

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Trio

Paramos para café e conversa em Revolta, prosseguimos uma ascensão conversadora, fotografia, psiquiatria, literatura, qualidade de vida, Paris, Tomar, Lisboa, Angela Merkel… E, claro: Alexandra David-Neel. Conversa e mais conversa. Quando a dita se torna impossível no anglo-saxónico que serve de ponte, falo em francês e Pieter traduz para alemão, seja como for falamos demais, experiência enriquecedora se, acaso sentados em conversadeiras, nos reuníssemos numa sala, num café, num jardim, porém não no Caminho de Santiago, pois vamos pouco presentes no espaço. Pieter atenta nesta distração peripatética, escapa-se por isso duas vezes, recuperamo-lo quando pára e, na segunda vez, por se ter perdido, apanha-nos ele sentadas: na conversa.

Um rebanho começa a sair do pátio, leio “Anno de 1756”  por cima do portão.

– Posso tirar uma fotografia?

– Às ovelhas, pode.

Fixadas as bichas, interrogo a dona.

– Não quis ficar na imagem… Porquê?

– Trago a roupa de trabalho!

Passamos por uma ponte, dois rottweiler atacam – soltamos o grito de Munch. No instante derradeiro, eles penduram-se na grade. O nosso susto é enorme e persiste ainda a dúvida… O que ocorrerá quando os monstros conseguirem saltar?!

A meio da encosta está um homem a carregar o atrelado com vegetação.

– Os cães são do senhor?

– Não! O dono vive no Porto. Os meus não metem medo, trato-os muito bem… Não quero bichos ao abandono!

– E o terreno é do senhor?

– O terreno, é… Vim aqui cortar árvores, ando sempre a cortar: crescem que é um disparate. As que vieram de fora tornaram-se uma praga: a acácia, o eucalipto… Estas nem os incêndios dão cabo delas, têm cápsulas que se queimam, espalham as sementes, depois ainda é pior e, se havia uma, nascem cem…

Prosseguimos a célebre ascensão dos quatrocentos metros. Devagar. Fotografamos as pedras, as urzes, os fetos ruivos e verdes… Pomos e tiramos os impermeáveis – chove de vez em quando. Compartilhamos quadrados de chocolate. Encontramos no cume duas finlandesas, the highest point, repete Angelika para aprender. Começamos a descida; eu tentando amortecer o esforço. Angelika descalça-se, refresca os pés na água corrente, cuja temperatura a faz dançar o foxtrote. Rimos. Continuamos a conversar. Continuamos a rir. Falamos das “Novas Viagens na Minha Terra” durante vários quilómetros… E chegamos por fim ao albergue de S. Roque (Rubiães).

Pieter e Angelika dormirão aqui. Eu hesito… Gostei da companhia, por outro lado, se pernoito neste lugar, tornar-nos-emos um trio; e a conversa estraga a paisagem. Arrisco-me a prosseguir. Mas será prudente?

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