AO REDOR DO LAROUCO – 2 – por Rui Rosado Vieira

ESTÓRIAS DE OUTROS TEMPOS

 

 

A TERRA E AS GENTES

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Os invernos eram demorados e rigorosos. De dias curtos e noites longas. De chuvas e ventos frios, de grandes nevões.

Não obstante a imagem gélida da Serra do Larouco, revestida de grosso manto de neve, acrescida da visão dos telhados de casas com paredes graníticas e ruas tortuosas e estreitas, de piso irregular, revestido de abundante neve crocante, criava cenário de estranha beleza.

Os campos de terra arenosa, povoados de vegetação espontânea, de frondosos castanheiros e carvalhos e, aqui e além, de legumes da região, apesar da evidente presença das nevadas, teimavam em mostrar-se, formando um mosaico verde e branco de grande esplendor.

O silêncio das noites, interrompido pelo silvar do vento soprando entre a ramagem das árvores, ou pelo ladrar dos cães perseguindo lobo ou raposa que se atrevia a aproximar-se do povoado, constituíam imagens visuais e sonoras singularmente belas.

Findos os rigores invernosos, as neves acumuladas lá no alto do Larouco derretiam e a natureza despertava célere da longa letargia. As noites tornavam-se menos longas. As plantas bravias despontavam vigorosas do solo. Surgiam as primeiras flores. O verde tornava-se aos poucos a cor dominante da paisagem.

Rápidas, como se de uma só estação se tratasse, vinham a Primavera e o Verão. As manhãs brilhantes do nascer do sol, ao som do pipilar da passarada. As tardes de astro-rei incandescente, a esconder-se vagarosamente entre os montes circundantes.

As encostas da serra pinceladas de manchas castanhas e arroxeadas da vegetação natural. Quase por todo o lado, dominante, o amarelo forte das giestas. Nos vales verdes escuros, pujantes de humidade, a água dos ribeiros a sussurrar entre as fragas. As pequenas planícies pejadas de castanheiros. Os velhos caminhos ladeados de árvores seculares e de arbustos de diferentes matizes onde, a horas certas do dia, se ouvia o tilintar sincopado dos chocalhos do gado, no vaivém entre os estábulos na aldeia e as pastagens nos campos.

Era a natureza na sua harmonia primitiva, agreste e bela, em pleno apogeu, a mostrar aos homens que a existência podia e devia ser mais que uma triste, insípida e rápida passagem pela terra.

Uma das características dominantes da generalidade dos homens e mulheres do pequeno povoado, era o apego idiossincrático ao trabalho duro de cultivar o chão agreste das suas reduzidíssimas propriedades agrícolas, para dele retirar o necessário à subsistência de suas numerosas proles.

A vida na aldeia regia-se, desde épocas remotas e até à década de 1960, por costumes próximos do comunitarismo primitivo.

Havia o forno comum. A distribuição da água necessária à rega das hortas e lameiros tinha regras estabelecidas pela comunidade. As ovelhas e cabras de diversos donos formavam um rebanho conduzido alternativamente, por diferente pastor, durante número de dias proporcional à quantidade de animais que lhe pertenciam. Costume denominado de “vezeira”, que ainda persiste nos nossos dias. A reparação e limpeza dos caminhos rurais era trabalho partilhado por todos os homens válidos da terra. A ajuda mútua também estava presente em certos trabalhos sazonais na agricultura.

O dinheiro quase não circulava. A troca directa era prática comum. Uma saca de batatas, tubérculo abundante no território da aldeia, trocava-se por igual saca de laranjas trazidas por gente de outra região. Por um ovo produzido nos galinheiros da povoação, recebia-se uma caixa de fósforos. A entrada de cada pessoa para assistir ao filme projectado na sala do cinema ambulante – uma das cortes onde se guardava o gado – pagava-se com uma boina cheia de centeio.

No mundo espiritual, as superstições, nas suas diversas versões, o mau-olhado, os bruxedos, o benzer o coxo, e outras crendices, dominavam as mentes das gentes da terra.

Num tempo que Portugal apresentava índices de mortalidade elevada, em especial entre as crianças, a mortalidade infantil atingia na aldeia proporções elevadíssimas. Provavelmente por tal, a generalidade dos habitantes encarava a ideia da morte com grande naturalidade. Constituía prática comum, no seio das famílias, alguém de entre os mais velhos, mandar deitar no chão os seus meninos ou meninas de saúde mais frágil, para lhes tirar a medida palmo a palmo, com o objectivo, comunicado ao próprio, de em caso de óbito, lhes poder mandar fabricar sem demora o caixão adequado.

Manuel da Eira era o mais idoso de entre os habitantes do povoado e dos raros que sabia ler e escrever. Ti Manecas, como geralmente o tratavam, era bom conversador e conhecedor, não só dos acontecimentos mais importantes do seu tempo, como de épocas mais recuadas. Estórias transmitidas por um seu avô, de quem herdara a arte de contar o passado dos seus conterrâneos.

Vencidas as grandes invernias, quando surgiam os dias solarengos, era vê-lo, juntamente com outros já corroídos pelas doenças e por vidas de intenso trabalho, aquecendo-se ao sol, sentado nos degraus das escaleiras de certas casas do Largo da Fonte.

Era ocasião de conversar sobre as dificuldades quotidianas, dos danos que os longos meses de geadas e nevões haviam causado na saúde de familiares e amigos. Das dificuldades em alimentar o gado, do feno armazenado que já escasseava, dos novos pastos que tardavam em crescer, tão necessários ao sustento dos animais.

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Quando os temas do dia-a-dia se esgotavam, era o momento de Ti Manecas entreter a reduzida assembleia e, recorrendo à sua inesgotável memória, desfiar as inúmeras estórias que conhecia. Narrativas que, com o rigor possível, aqui se reproduzem.

A aldeia, segundo ele dizia, possuía na década de 1960, cerca de meio milhar de habitantes, os quais na sua quase totalidade eram analfabetos.

A quase totalidade das famílias dispunha de reduzidíssimos recursos. Alimentavam-se quase exclusivamente de batatas cozidas, cebolas cruas salgadas, couves e, raramente, de produtos derivados do porco.

As bebidas alcoólicas, em especial o vinho tinto, eram produtos muito desejados. Bebiam crianças, mulheres e homens, com frequência que dependia das suas possibilidades económicas. Algumas mulheres atingiam elevada longevidade, sem outra bebida que não fosse o vinho. Recusavam-se a ingerir leite ou água por entenderem que tais líquidos lhe causavam mau estar.

Grande parte das gentes do povoado residia, naqueles tempos difíceis, amontoada em autênticos tugúrios sendo comum dormir, numa sala sem qualquer ventilação, dez e mais pessoas de diferente idade e sexo.

Nas relações homem-mulher o que era, segundo se dizia, excepção noutras partes do país, aqui constituíam quase regra. Os divórcios, as separações, o que hoje se denomina de uniões de facto, a bigamia, os filhos de pais não casados, não só eram fenómenos frequentes, como eram práticas aceites sem reprovação pelas gentes da aldeia.

Para espanto dos presentes, dizia que a transgressão às tradicionais regras de relacionamento amoroso, tinham antecedentes longínquos nas povoações das redondezas. Infracções a que não eram alheios os próprios membros da igreja católica. Ti Manecas ouvira dizer a certas pessoas letradas, que Frei Bartolomeu dos Mártires, terá solicitado no Concílio de Trento, em 1545-1563, que os sacerdotes da região barrosã fossem dispensados do celibato. (1)

Concluía dizendo que até ao ano 1961, quando a electricidade chegou finalmente à aldeia, os seus habitantes viviam isoladas do mundo, desconhecendo quase tudo o de significativo se passava no país e no estrangeiro.

(1) Miguel Torga, in “Diário X”, pp.158-159

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