A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 34 – por Sérgio Madeira

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Capítulo trinta e quatro

Norberto explicou a Alfredo por que motivo a vida do padre Manuel corria perigo – ele fora testemunha de um pavoroso massacre e temiam que o relatasse. Sabia-se que antes de ser hospitalizado tentara convocar uma conferência de imprensa. A pressão que se exerceu para que se calasse percorreu um amplo leque de intensidades – desde a ameaça física até à tentativa de suborno. Fora essa pressão, que viera inclusive da própria ordem religiosa a que pertencia, que desencadeara a crise profunda que o levara a ser hospitalizado.

Uma alta figura do Vaticano deslocara-se a Lisboa e, constava, estivera muitas horas reunida com o cardeal-patriarca na nunciatura apostólica  –  dessa reunião saíra o compromisso mútuo de, por um lado, manter o padre em silêncio e, por outro, impedir que o assassinassem. Se alguma coisa lhe acontecesse  o relatório que ele enviara ao principal da ordem, seria imediatamente divulgado.

E fora por uma simples questão de segurança que fora colocado naquela enfermaria situada num pavilhão onde era mais fácil controlar o trânsito de pessoas do que no edifício central. Todas as entradas e saídas do pavilhão eram controladas por soldados da Polícia Militar.

Mas Norberto não acreditava na eficiência do controlo e explicou:

– Para os europeus os pretos são todos iguais. Quem nos diz que com um cartão de identidade de um enfermeiro ou auxiliar, não entra um assassino?

E explicou o que pretendia. Pôr o padre a bom recato.

– Raptá-lo? – disse Alfredo.

– Pode dizer-se assim – disse calmamente o alferes Norberto de Sousa.

– Ouve uma coisa… – por esta altura já se tuteavam – Vou pedir mais duas cervejas.

 

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