A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 36 – por Sérgio Madeira

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Capítulo trinta e seis

– Raptá-lo? – perguntara Alfredo.

O alferes Sousa assentira. E Alfredo pedira mais duas cervejas «Para assentarmos ideias», dissera. Bebidos os primeiros goles, perguntou:

– E como fazemos isso?

Norberto de Sousa explicou com a sua voz pausada e calma:

– Muito simples. Temos observado que as entradas são vigiadas com cuidado, mas que as saídas se fazem sem problemas de maior. Em vários dias de observação, nós apenas detectámos dois pedidos de identificação na saída. Sendo assim, o nosso homem com um uniforme e com os galões de oficial até terá direito às respeitosas continências dos PMs. – após uma pausa, acrescentou – mas seria necessário passá-lo para um quarto. Ele não pode despir o pijama vestir o uniforme à vista de todos…

-Isso não é difícil. Com os gritos que ele dá durante o sono, acordando todos os doentes, até será uma medida bem acolhida por todos. E combinaram os pormenores.

Entretanto, numa enfermaria do corpo central do edifício, no serviço de ortopedia, um outro doente recebia uma visita fora de horas. O agente Nachawi, a convalescer de uma segunda cirurgia a uma fractura do perónio da perna esquerda foi informado de que logo que pudesse andar deveria «tratar do padre» – e dentro do espesso envelope, além de uma importância em dinheiro, vinham elementos de identificação que lhe atribuíam outro nome. E uma autorização, assinada por um general, comandante da Região Militar de Moçambique, instalada em Nampula, para poder circular livremente por todo o perímetro hospitalar.

Nachawi, quando o agente saiu, ergueu-se da cadeira de rodas e tentou dar uns passos sem usar as canadianas. Quase caiu sobre a cama. Premiu a campainha eléctrica para chamar o enfermeiro de serviço. Pousar a perna engessada no chão provocara-lhe uma dor lancinante. O trabalho tinha de esperar uns dias.

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