A INSERÇÃO DA EDUCAÇÃO NA COMUNIDADE – A POSIÇÃO DE CALVET DE MAGALHÃES por clara castilho

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De acordo com o Dicionários de Educadores, Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães (1913-1974) fica lembrado como professor e metodólogo da disciplina de desenho no ensino técnico, inspector e director escolar, artista plástico e periodista.

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Tendo tirado o curso de pintura histórica, na Escola de Belas Artes de Lisboa e o curso de cenografia, iniciou a carreira de professor com apenas 23 anos, tendo-se logo revelado como pintor (recebeu o prémio Sousa Cardoso). Dirigiu e ilustrou diversas publicações de arte mas acabou por se dedicar à carreira docente, dedicando-se ao desenho gráfico. Ilustrou manuais escolares e livros infantis e teve uma intervenção preciosa na divulgação da arte entre as crianças.

Em 1956 tomou posse como director da Escola Técnica Elementar Francisco de Arruda de Lisboa onde fomentou sessões culturais de grande impacto (filmes didácticos, recrativos, leitura de contos ou declamação de poesia, concursos escolares) e desenvolveu a “sua concepção de escola como centro de educação e não apenas de instrução”.

Es. Francisco Arruda

Defendeu a necessidade  de as crianças expressarem os seus talentos artísticos e do papel capital da expressão estética para a formação da personalidade”. Publicou artigos em jornais de Lisboa e Porto, versando a educação através da arte, defendendo o valor pedagógico da arte pelas crianças, e claro, a promoção da arte na escola sendo membro da direcção do International Society for Education througt Art.

Dirigiu várias exposições de trabalhos de crianças, entre as quais “O Natal visto pelas crianças” e “A ponte vista pelas crianças”. “Os meios audiovisuais tornaram-se, a partir de 1964, uma das suas principais apostas: dotou de meios audiovisuais invejáveis a escola Francisco Arruda (…) onde destacaria os de projecção por permitirem a difusão massiva da imagem”. Afirma Calvet de Magalhães: “ A criança primeiro que tudo impregna-se duma cultura que é necessário chamar extra-escolar, muitas vezes desordenada e confusa, mas sempre rica em substância. Uma das tarefas essenciais do professor do nosso século é precisamente “escolarizar” essa cultura. Ajudar a criança a organizar utilmente as imagens recolhidas no acaso da vida” (1964).

Participou na fundação da Associação Portuguesa para a Educação pela Arte em 1957, foi colaborador da Fundação C. Gulbenkian, dirigiu a revista Luz e Som e em 1969 empenhou-se na fundação da Cooperativa Ludus. “Foi a sua ligação ao jornalismo que mais ajudou a projectar a sua figura pública como pedagogo”, sendo colaborador regular do Diário de Lisboa e de A Capital,  a Vida Mundial, entre outros.

Educação pela Arte

Para Calvet de Magalhães, a acção da escola “deveria concentrar-se no fornecimento das “bases da vida colectiva” ou a aprendizagem da vida social”, o que implicava muito mais do que a acção ao nível da sala de aula”.

Recorda António Torrado (in Boletim do Instituto de Apoio às Criança – Nov/Dez 1994):“Era uma força jubilosa de vida, dotado de um dinamismo e de um apetite de acção, quer educativa quer artística, que no Portugal mortiço dos anos 60, em que o conheci, sobressaía de forma quase escandalosa”. E ainda: “Não seria homem de investigação e gabinete, mas de invenção e de gabinetes, o dos outros, por onde destemidamente entrava, sobraçando projectão, atirando ideias, inflamando ânimos, desinquietando. Era um agitador pedagógico, uma acendalha perigosíssima.(…) “Enfant terrible” institucionalizando, o Prof. Calvet desse título de desplante tirava partido excepcional para, numa sociedade arreganhada por desconfianças e ressentimentos, estabelecer consensos, atenuar diferendos, com as armas do bom humor, o sentido prático, da jovial divisa dos ganhadores: “O que tem de fazer faz-se!” E fazia-se, porque era o Calvet o irresistível dinamizador do que havia a fazer”(…) Entre margens opostas o Prof. Calvet de Magalhães ajudou a levantar pontes úteis.”

No dia 29 de Agosto de 1974 suicidou-se na escola que havia dirigido durante quase duas décadas.

Este ano é o centenário do seu nascimento. Para o comemorar a Escola Francisco de Arruda,  organiza hoje um evento de homenagem a decorrer neste momento. Num Painel – “Conhecer Calvet de Magalhães” –  participarão Mário Godinho , Alice Vieira,  Maria Emília Brederode Santos e sua filha Maria Manuel Calvet Ricardo. Às 18h30 – haverá o descerramento de uma placa em sua homenagem.

                         

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