AO REDOR DO LAROUCO – 4 – por Rui Rosado Vieira

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O LAMEIRO DOS ENCANTOS

Eram tempos da 2ª. Grande Guerra Mundial que, apesar de assim denominada, ocorreu, na sua quase totalidade, em território europeu, na qual, enquanto uns pereciam nos campos de batalha, outros aproveitaram para, cavalgando a onda sinistra do conflito, arrecadar enormes fortunas. Tal foi o que aconteceu com os detentores de certos grupos económicos que se dedicaram à exploração das minas de volfrâmio em algumas partes da província portuguesa de Trás-os-Montes.

A região transmontana, afirmava Ti Manecas, era, naquela época, povoada por gente muito pobre, distribuída por pequenos lugarejos, de ruas tortuosas e piso esburacado, bordejadas de humildes casas de granito. Aldeias onde a posse de algumas parcelas de terra, de duas ou três vacas e uma dúzia de ovelhas e cabras, constituíam sinal de riqueza e garantiam ao seu proprietário estatuto social de destaque entre os habitantes.

Diamantino era o filho varão mais velho de uma família desses privilegiados minifundiários da região barrosã, numa aldeia situada nas proximidades da Serra do Larouco, fronteira com a província espanhola da Galiza.

Jovem que bem cedo revelara assinalável coragem, grande autonomia e capacidade de trabalho. Com cerca de dez anos de idade já ajudava os seus progenitores nos trabalhos mais ligeiros em casa e no campo, em especial na guarda das vacas que aos domingos conduzia até ao Lameiro dos Encantos, contíguo a uma mina de volfrâmio, dia em que o empregado contratado para acompanhar o gado habitualmente folgava.

Aquela parcela de terra era a mais valiosa exploração agrícola entre todas as pertencentes à família. Por tal e pela proximidade da mina, os proprietários desta ofereceram, naquele tempo, a quantia de 300 contos pela sua compra. O orgulho do proprietário, próprio das gentes da região, e a importância dos produtos que dela retirava, impediram a concretização do negócio.

Era voz corrente, desde há algum tempo, que em virtude da escassez dos filões, a exploração da mina se tornara pouco rentável. Contudo, dados os baixos custos que a sua laboração acarretava – os reduzidíssimos salários e o desinvestimento na renovação da maquinaria para tal contribuíam – continuava a funcionar normalmente, sem que se vislumbrasse para breve o seu encerramento.

Aconteceu, porém, a partir de certa altura, que as tradicionais conversas ao serão, à luz das candeias, passaram a incidir com particular ênfase sobre os prejuízos materiais que a actividade da referida mina provocava na sua propriedade mais fértil – O Lameiro dos Encantos. Diálogos que com o decurso do tempo, subiam de frequência e de tom e que o jovem escutava em silêncio.

Contudo, não obstante a sua pouca idade, Diamantino não deixava de se interrogar sobre a hipótese de ele próprio tentar solucionar problema tão importante para o equilíbrio económico do agregado familiar de que fazia parte.

Os dias passavam sem que no lameiro, onde as vacas diariamente pastavam e donde proviria o centeio para o fabrico de pão, o feno para alimentar o gado e as batatas semeadas em devido tempo, houvesse sinais de vida. Anomalias que a generalidade das gentes atribuía à presença, nas terras que antes eram férteis, de resíduos produzidos nos últimos anos pela actividade da contígua mina de volfrâmio.

Perante a impossibilidade dos seus progenitores se oporem aos poderosos homens da finança que, lá longe, na grande cidade, se mostravam surdos aos protestos apresentados pelos donos da pequena parcela agrícola, continuando a recolher os lucros gerados pela mina, Diamantino achou que era tempo de intervir. Assim, e sem que o revelasse a alguém, considerou ter encontrado forma segura de resolver de vez a questão que tanto preocupava os seus familiares.

Desse modo, num domingo, manhã cedo, ao chegar sozinho com as vacas para pastar no lameiro situado junto à mina, decidiu ser a ocasião propícia para por em prática o projecto que havia congeminado.

Logo que chegou encaminhou o gado para as parcas e, certamente, contaminadas pastagens, iniciando uma volta pelas cercanias da mina com o intuito de saber se havia alguém por perto. Em especial para se certificar se o guarda das instalações mineiras estava ausente, como habitualmente vinha acontecendo aos domingos, desde há algum tempo.

Para concretizar o plano imaginado aguardou pelo fim da tarde, pelo momento em que se aproximava a hora de regressar com o gado para a corte na aldeia. Dirigiu-se, então, ao ponto nevrálgico da mina, para uma plataforma rasgada a cerca de dois metros abaixo do nível do chão, onde, a céu aberto, se encontrava a maquinaria essencial ao funcionamento da exploração mineira.

Ali, com os mais pesados pedregulhos que a sua força podia erguer lançou-os, sucessivamente, sobre as passadeiras rolantes, sobre o trilho de lavagem da terra, sobre o motor de extracção água e sobre as máquinas que forneciam electricidade ao conjunto da mina.

Finda a sigilosa operação regressou com o gado à aldeia, actuando a partir de então, nas relações do dia-a-dia com os seus familiares e companheiros de diabruras, como se nada de especial tivesse sucedido.

No dia seguinte, começou a circular pela aldeia que, a mina vizinha do Lameiro dos Encantos, não podia laborar porque alguém se encarregara de destruir as máquinas que asseguravam o seu funcionamento.

Os comentários dos familiares e das gentes do povoado sobre o caso tornaram-se o tema dominante, sem que alguém suspeitasse de Diamantino, que tomara todos os cuidados para que o seu acto se mantivesse em completo segredo.

Com o decorrer dos dias o assunto passara a ser menos falado entre os habitantes da aldeia parecendo, a Diamantino, que tudo se encaminhava para que em breve se tornasse num daqueles casos cujos intervenientes ficavam no anonimato e serviriam mais tarde para entreter os longos serões das famílias do lugar.

A vida no pequeno povoado continuou o seu quotidiano tradicional e Diamantino, como era costume, voltou, logo no domingo seguinte, manhã cedo, com as vacas ao Lameiro dos Encantos. Após encaminhar as vacas para o espaço onde a pastagem era mais abundante, procurou uma pequena elevação onde podia sentar-se e vigiar os animais no seu deambular pachorrento.

Mal acabara de se acomodar sentiu que alguém vindo de trás o agarrava pelo pescoço com violência e de seguida o arrastava para o interior de uma casota próxima, apontando-lhe de pronto uma pistola à cabeça ao mesmo tempo que em altos gritos o acusava de ser o autor dos danos causados na maquinaria da mina e com isso ser o causador do seu encerramento.

Era o guarda da mina, um cidadão galego, que devido à sua falta de vigilância, fora responsabilizado pelos seus superiores pelo acontecido, que forçava o jovem guardador de vacas a confessar a autoria dos estragos provocados na maquinaria.

A criança tremia de medo, lágrimas grossas corriam-lhe pela face ameninada, enquanto o guarda continuava, de pistola encostada à sua fonte, apostado em que reconhecesse a sua culpa pelo sucedido.

Diamantino não cedia aos apelos agressivos do guarda, negando com firmeza qualquer responsabilidade nos danos ocorridos na mina. Estava convencido que se confessasse o homem o mataria.

A ameaça aterrorizante demorou cerca de meia hora até que o guarda o libertou, não sem que antes o que agredisse a pontapés pela porta fora.

Diamantino tinha consciência da gravidade da sua actuação, da qual se sentia plenamente orgulhoso. Contudo, o receio de ser castigado levou-o a guardar prolongado sigilo, só revelando o seu cometimento, largas décadas depois, aos seus familiares mais próximos.

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1 Comment

  1. Pedaos de uns tempos que j esto num passado bem longinquo –

    As minas de volfrmio tb existiram em Foz Coa -A minha av era bem pobre .O meu Pai detestava a escola .Foi trabalhar para as minas que ali eram conhecidas como o POIO” ,trabalho durssimo .Omeu Pai tinha ambies ,no queria ser “poieiro “.Acabou por aprender mecnica num sector naval onde tinha o Padrinho .Muito jovem partiu para Moambique como mecnico dos CTT e l morreu -Nasci ali ,sempre ouvi dados culturais ,da o meu interesse por este gnero de referncias.Foz Coa tem na minha memria de menina um manacial linguistico perdido -A emigrao levou-o com os velhos para o alm -que pena! Obrigada por estes momentos a recordar -Maria

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