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onde A.J. Saraiva se propõe estudar a textura do discurso engenhoso do grande orador sagrado, analisando progressivamente as palavras, as imagens, as proporções e o texto. Com efeito, um dos processos mais evidentes da oratória barroca de Vieira consiste no valor concedido à palavra, examinada de um ponto de vista lexicológico que compreende o amplo recurso à etimologia, muitas vezes à etimologia popular. Por outro lado, partindo o seu discurso de um “conceito predicável” extraído da Sagrada Escritura, é importante sublinhar a conhecida posição do jesuíta, tornada explicita no “Sermão de Nossa Senhora do Ó”, segundo a qual «uma das maiores excelências das Escrituras Divinas é não haver nelas nem palavra nem sílaba, nem ainda uma letra que seja supérflua ou careça de mistério». Daqui se infere que a poética vieiriana se afirma a partir de uma exegese linguística e mítica do texto sagrado, que, como é inevitável, passa frequentemente por um processo de re-semantização ou de multiplicação de significados, o que contraria a preocupação teórica do orador no sentido «de estabelecer para cada palavra o sentido que lhe corresponde exactamente, evitando a ambiguidade e a polivalência». Exemplo significativo é a interpretação, por vezes cabalista, de certos elementos da palavra, processo a que o estudioso chama «fazer a anatomia da palavra», em que se pode inserir o famoso enigma linguístico, aliás proposto pelo padre José de Anchieta e depois recuperado por vários autores: «E, para descrever o estado selvagem em que vivem os índios da Amazónia, Vieira faz notar que a língua deles não possui as letras f, l e r, porque não têm ‘fé’ nem ‘lei’, nem ‘rei’».
Artigo extremamente apelativo -Obrigada .Maria