A CAMINHO DOS ANOS 30 – FINAL. SELECÇÃO DE TEXTO E NOTA FINAL POR JÚLIO MARQUES MOTA

Nota final sobre uma longa série de textos A caminho dos anos 30

Chegamos hoje ao fim de uma longa série textos  sobre o caminho que se estava a seguir, a caminho dos anos 30, a caminho da ascensão de Hitler ao poder.  E a deflação foi o elemento fundamental na sua ascensão e não a inflação como disso nos querem convencer os mentirosos de Bruxelas.

Aqui vos apresentamos e em jeito de despedida da série um texto elegante sobre este mesmo tema, onde se cruzam Keynes e Lenine, onde nos dizem explicitamente que, ao nível a que nos encontramos hoje, a revolta de populações inteiras, com o arrastar da infelicidade colectiva, das falências em massa, de uma juventude que como futuro apenas tem nada, levará a uma outro sítio, a algures ou a nenhures, mais provavelmente a nenhures, à negação do capitalismo, da democracia, a caminho provavelmente do fascismo.  Sinal desses tempos futuros já muito próximos parecem-me possíveis de serem lidos na criação a partir de Bruxelas de uma força militar, a EuroGendFor» – um exército privado da UE – que estará pronto a partir para a Grécia, em nome da ordem dos mercados. Um tema de que falaremos em breve.  

Chegamos pois ao fim desta série A caminho dos anos 30. Nomes  de economistas importantes preencheram esta série, nomes que muitos deles iremos retomar numa outra série que terá como titulo Falemos de economia, falemos então de política. E para esta nova série contamos com o apoio de todos os que nos seguiram por estes caminhos.

Coimbra, 25 de Novembro de 2013

Júlio Marques Mota

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Revelado! O brilhante plano de Lenine  para destruir o capitalismo

E as suas lições essenciais sobre a moeda e sobre a economia actual

MATTHEW O’BRIEN

Lenine - I

Camarada, não é a flexibilização quantitativa da moeda suposta ser um meio para criar o socialismo agora? (Wikimedia Commons)

Digamos que o leitor  é um revolucionário a querer  derrubar o capitalismo. O leitor terá  percebido tudo quando se trata de alcançar  o poder. Mas ainda não tem a certeza como eliminar o sistema de mercado no seu país, de uma vez por todas, para sempre,  dado que o Estado é o próprio leitor,  l’état c’est toi. O que é que se deve então fazer?

Imprimir, imprimir, imprimir. Essa foi a resposta de Lenine. Ou pelo menos o que John Maynard Keynes pensou que seria a resposta de Lenine. No  seu Tratado de pós-Versalhes, As consequências económicas da paz, Keynes , numa expressão  que  ficou famosa citou o líder Bolchevique talvez de forma apócrifa , dizendo que “a melhor maneira de destruir o sistema capitalista é torna-lo depravado em termos da quantidade de papel-moeda  emitida”. Por outras palavras, os banqueiros centrais incompetentes são os  melhores  amigos do comunismo . A idéia é a de que  hiperinflação torna  os mercados disfuncionais   e rompe as alianças de classes. Não é possível planear a actividade económica para um horizonte além do amanhã imediato,   se não se consegue  saber  o que vai valer o dinheiro amanhã. E uma moeda em colapso transforma a burguesia em  proletariado da noite para o dia . E com  isso parece que o leitor já está a ouvir a revolução que vem ai.

Mas é tudo bem mais  complicado do que isso. Michael White e Kurt Schulerunearthed citam a frase original de Lenine ..–sim, ele realmente disse isso..—num estudo apresentado em  2009 no Journal of Economic Perspectives. E digamos que Lenine  não estava tão optimista quanto ao  desaparecimento do capitalismo. Veja-se o que  Lenine pensava sobre a hiperinflação como a  melhor maneira de destruir o capitalismo após a revolução, porque a revolução não seria suficiente em si-mesma para o destruir. A motivação pelo lucro iria sobreviver mesmo se o estado burguês não sobrevivesse..–e mesmo se o estado socialista o tentasse  proibir . A única maneira de destruir  o lucro  como fim era dar cabo dos  lucros. E isso significava destruir o próprio conceito de moeda. Vejamos agora  como é Lenin descreveu o que  ele tentaria  fazer depois da tomada do poder, em  1919 (os sublinhados são nossos ):

Centenas de milhares de notas de rublo estariam  a ser  emitidas diariamente pelo nosso Tesouro. Isto é feito, não para encher os  cofres do Estado com papel praticamente sem valor, mas sim  com a intenção deliberada de destruir o valor do papel-moeda  como meio de pagamento. Não existe nenhuma justificação para a existência de dinheiro no estado bolchevique, onde as necessidades da vida devem ser pagas somente pelo  trabalho .

A experiência ensinou-nos que é impossível erradicar os males do capitalismo meramente pelo confisco e expropriação, mesmo que tais medidas sejam aplicadas de forma bastante  impiedosa,  uma  vez que os  especuladores astutos e os obstinados sobreviventes das classes capitalistas sempre conseguirão  evitá-las e continuar a corromper a vida da comunidade. A maneira mais simples para exterminar o espírito do capitalismo é, portanto, inundar o país com notas de um elevado valor facial e sem  nenhuma garantia financeira seja  de que tipo for.

Mesmo uma nota de cem-rublos é hoje quase já sem valor  na Rússia. Em breve, mesmo o mais simples camponês vai perceber que é apenas um pedaço de papel, não vale mais do que o materiais com que é fabricada. Os homens vão deixar de as cobiçar e acumular  tão imediatamente quanto  eles descobrem que não vão comprar nada  com elas, e a grande ilusão do valor e do poder do dinheiro, na qual se baseia o Estado capitalista será tudo  definitivamente destruído.

Esta é a verdadeira razão pela qual as rotativas das tipografias da nossa casa da moeda  terão de estar  diariamente, dia e noite, sem descanso,  a imprimir papel-moeda.

Bem, talvez. Ou talvez os bolcheviques estivessem a imprimir  notas em  rublos dia e noite, sem descanso, porque eles tinham que o fazer. Eles precisavam de dinheiro para alimentar  a guerra civil que se travava, mas eles não tinham nada, devido a estarem perante uma economia em queda livre  e a um embargo ocidental (e  uma intervenção militar). E assim  deixaram funcionar as rotativas . Então há algo em Lenine  a tentar  transformar os problemas económicos com que se debatia em questões de pura ideologia. (No original:  So there’s something of Lenin trying to turn economic lemons into ideological lemonade here)

Mas ainda há aqui  algo a ver com  a ideia de que a destruir o valor do papel-moeda se destrói a democracia e o capitalismo como de mais nenhuma outra maneira é possível, certo?

Actualmente, não. Tomemos a Alemanha de Weimar. Toda gente  sabe que   é possível conceber  uma linha recta que vai da hiperinflação até Hitler, mas, neste caso, o que todos sabemos agora é que isso  é errado. Os nazis não tomaram  o poder quando os preços se estavam a multiplicar por dois  de quatro em  quatro dias — em 1923, eles tentaram e falharam..–mas sobretudo pode-se dizer que tomaram o poder quando os preços estava em queda, em 1933. Veja-se, o dinheiro é apenas uma questão de memória. É como o presidente do  Fed de Minneapolis,  Narayana Kocherlakota,  coloca a questão  em 1996 e ele tem razão: é a nossa maneira de mantermos o registo de quem tem e de quem não tem.  A hiperinflação destrói um conjunto de  memórias, mas nós podemos sempre usá-las  ou criar outras.  Como alternativa, podemos recorrer à moeda forte ou à moeda escritural  ou à troca directa, em vez disso. Em qualquer caso, a nossa ideia  de mercado ainda existe,  ainda aí está , mesmo que já não estejam lá  as nossas economias. A deflação, porém, não destrói as nossas memórias. Não, é bem pior. Deixa-nos sem nada para recordar. Os preços em queda significam que os salários também estão em queda –o que significa o crescente aumento do desemprego e o aumento dos encargos da dívida. É um círculo vicioso de sinal descendente que conduz às falências em massa. E as falências  em massa são uma forma de tornar as pessoas  bastante  infelizes e revoltadas o suficiente contra o capitalismo de tal modo que querem tentar outra coisa.

Por  outras palavras, os banqueiros centrais incompetentes são realmente os melhores aliados dos comunistas — mas somente os banqueiros  centrais que imprimem muitíssima pouca moeda . Então, talvez os revolucionários, esqueçam a sedução da emissão da moeda. A melhor maneira de destruir o sistema capitalista é então a de  se inquietar  com a inflação durante uma depressão.

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