GIRO DO HORIZONTE – JOHN KENNEDY – por Pedro de Pezarat Correia

 10550902_MvCyL[1]Ao contrário de outras semanas em que dou voltas à cabeça à procura de um tema para nele centrar a intervenção semanal neste GDH, hoje a dificuldade foi selecionar entre muitas hipóteses possíveis. A manifestação das diversas corporações policiais frente à AR ocorrida na passada quinta-feira, a jornada na Aula Magna em defesa da Constituição no mesmo dia, o acordo sobre o programa nuclear do Irão ontem celebrado, a efeméride do 25 de Novembro de 1975 que hoje ocorre, a homenagem a Ramalho Eanes que também tem hoje lugar, tudo matérias a justificarem a minha reflexão de hoje. Por motivos diversos decidi ir retirar à poeira do tempo um tema, porventura menos atual, sobre o qual nunca escrevi nada e mexe com a minha memória. É o assassinato de John Kennedy cujos 50 anos que se completaram no passado dia 22.

 Estava eu ao largo do estuário do Tejo, no navio Pátria, com a Companhia de Caçadores 172 que comandara durante 29 meses e mais cerca de um milhar e meio de militares que regressavam da sua comissão em Moçambique e deveriam desembarcar na Rocha Conde Óbidos no dia seguinte. A notícia recolhida na rádio de bordo constituiu um abalo profundo quando todos vínhamos animados da euforia pelo regresso a casa e ao reencontro com as famílias e amigos.

 John Kennedy, com a novidade da imagem cosmopolita, jovem e atraente do presidente dos EUA e da sua mulher, havia tocado a minha geração. Principalmente pela mensagem de mudança que transmitiu e, em relação à ditadura salazarista, pelo distanciamento que denunciou, nomeadamente quanto à política colonial e à guerra que dava os primeiros passos. Apesar dos condicionamentos da censura, chegavam-nos os sinais evidentes do mal-estar que causava nos meios governamentais e situacionistas e isso era suficiente para suscitar ou, pelo menos, curiosidade.

Evidentemente que o tempo de encarregou de desfazer muitos dos mitos que envolveram John Kennedy, para além dos “pecados” da sua vida particular. A fracassada invasão da Baía dos Porcos em Cuba. A incapacidade para contrariar a pressão dos “falcões” para o funesto envolvimento no Vietnam. A opção pela FNLA em Angola, o movimento de libertação menos recomendável e que viria a ser o único que, em toda a longa guerra colonial que envolveu Portugal nos vários teatros de operações, iniciou a luta armada de libertação com uma vaga de terrorismo sistemático e indiscriminado, que teria enormes repercussões estratégicas no início da guerra. A desinformação sobre a gestão da crise dos mísseis de Cuba, que colocou o mundo à beira de uma catastrófica guerra nuclear entre EUA e URSS e acabou classicamente solucionada pela dissuasão nuclear, com cedência mútua, Moscovo desmontou os seus engenhos em Cuba, Washington fez o mesmo aos seus mísseis na Turquia. Com o passar dos anos a memória de Kennedy “humanizou-se”, com as suas virtudes e os seus defeitos. Ficou o visionário da “new frontier”, que perante o muro de Berlim anunciou “eu sou um berlinense” e a cada um dos americanos deixou a mensagem que se tornou universal, “Não perguntem ao vosso país o que pode fazer por vós, mas interrogue-se cada um de vós o que pode fazer pelo seu país”.

Na verdade, no seu curto e tragicamente interrompido mandato, constituiu uma esperança para uma parte da oposição portuguesa carecida de referências. Kaulza de Arriaga, figura proeminente dos ultras do salazarismo, daria à revista “Visão”, passados mais de trinta anos (30 de Março de 1994), uma entrevista exemplar. Disse, com a frieza do ideólogo fascista: «Ele (John Kennedy) devia ter sido assassinado quatro anos antes.» Neste ódio das hostes mais empedernidas do Estado Novo está, em parte, a justificação para a ilusória esperança da oposição republicana, que a conivência norte-americana com Salazar vinha frustrando desde o fim da Guerra 1939-45.

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Já agora uma nota final que também tem um sabor americano.

Vasco Rato foi nomeado presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Não se conhecem a Vasco Rato, para além de fiel militante do PSD e das suas ligações aos setores mais conservadores da política norte-americana, qualificações especiais para a função. Analista vulgar de política internacional, sobressaiu entre os comentadores portugueses pelo apoio empenhado à mentira de Durão Barroso e Paulo Portas para envolverem Portugal na guerra “bushiana” de agressão ao Iraque decidida nas Lages. Ficou célebre a sua afirmação pública de que se passearia nu pelo Rossio se viesse a provar-se que o Iraque não tinha armas de destruição maciça, do que ele dizia haver provas irrefutáveis. Os lisboetas continuam a não ser contemplados com a visão das “suas vergonhas”. Que por mim, confesso, não tenho nenhum interesse em conhecer. De Vasco Rato já conheço vergonhas suficientes.

 25 de Novembro de 2013

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