Viviane Ramond, “A Revista ‘Vértice’ e O Neo-Realismo português”, prefácio de Eduardo Lourenço – uma leitura por Manuel Simões

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Manuel Simões confia-nos a sua nota de leitura de uma obra da investigadora francesa Viviane Ramond sobre a Vértice e o papel déssa revista no desencadear do movimento neo-realista em Portugal , um texto publicado anteriormente, com variantes, na revista “Rassegna Iberistica” (Veneza), de Abril de 2010).Imagem1

Por iniciativa da Comissão Promotora do Museu do Neo-Realismo, este movimento – dinamizador da cultura portuguesa a partir do final dos anos 30 do século XX – tem vindo a ser estudado de forma sistemática com a publicação da revista “Nova Síntese” (n°. 1, 2006), número que apresenta, sob o título de “História da história e estética do Neo-Realismo”, um fundamental levantamento crítico sobre os grandes teorizadores neo-realistas, de Mário Dionísio a Mário Sacramento, e sobre os mais importantes estudiosos do movimento, de Alexandre Pinheiro Torres a Carlos Reis, por exemplo. A revista parece ter despoletado, directa ou indirectamente, o interesse pelo estudo das fontes e do contexto sócio-político que deram origem ao Neo-Realismo, considerando um dos aspectos programáticos do seu plano editorial: «incentivar a renovação dos estudos sobre o neo-realismo e o seu contexto mais amplo através da publicação de trabalhos de estudiosos portugueses e estrangeiros» (nº1, p.5). Deste modo surgiu o volume de Luís Crespo de Andrade, “Sol Nascente. Da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo” (2007), no qual o objecto  de análise é precisamente a revista “Sol Nascente” (1937-1945) e a sua função teorizadora do movimento que teve depois o seu “banco de ensaio” com os primeiros romances de Alves Redol e com o “Novo Cancioneiro”; e agora o produto da investigação de Viviane Ramond (Coimbra, Angelus Novus, 2008) em torno de uma revista de referência como “Vértice”, trabalho que nasceu de uma tese de doutoramento apresentada na Universidade de Toulouse II há já alguns anos e precisamente em 1993.

Deve dizer-se que este trabalho, a vários níveis importante, não obedece exactamente ao sentido lato que o título enuncia, visto que a análise contempla apenas um período relativamente breve, desde o primeiro número da revista (1942) até 1951, não deixando a autora de notar as incongruências entre os textos da primeiríssima fase (1942-1945) e a organização decisiva a partir de 1945 com o grupo constituído por Arquimedes da Silva Santos, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Joaquim Namorado e Rui Feijó. O elo de ligação entre as duas “revistas” era constituído por Raúl Gomes, fundador absoluto e seu director por longos anos, o qual, à partida, decerto não tinha em mente um programa ideológico bem preciso, dado que no primeiro número colaboram personagens de diversos quadrantes, alguns até conotados com o fascismo italiano ou com a Alemanha de Hitler.

Tendo em conta os limites cronológicos observados pela estudiosa e sem deixar  de reconhecer que se trata de um período fundamental como definição da linha editorial, o que nos permite situar, de certo modo, o nível da «fase de gestação e de elaboração do movimento» (p.27), poder-se-á questionar o limite “ad quem” (Janeiro de 1951) como fronteira entre a qual se contém este trabalho. A estudiosa refere razões exógenas que afectaram a “coesão inicial” dos membros da revista, que vão desde a prisão dos mais activos até ao contexto político internacional, mas é inegável que a revista “Vértice” publicou posteriormente muitos textos teóricos que estão na base do conceito de neo-realismo (de Mário Dionísio, Álvaro Cunhal, Mário Sacramento e António Pedro Pita, entre outros), alguns deles mencionados na bibliografia mas sem incidirem na elaboração de um projecto que não contemplava uma tal amplitude exegética.

O estudo de Viviane Ramond, confinado, portanto, ao período de 1942 a Janeiro de 1951, ou seja, aos primeiros 58 números, passa por uma análise minuciosa de algumas secções da revista, desde os editoriais aos artigos, dos textos de ficção à crítica literária, quer dizer, os sectores susceptíveis de produzirem uma marca distintiva do movimento: «Se a criação da revista não é o resultado de um acto deliberadamente ditado por uma ideologia política, o mesmo não acontece depois da mudança de 1945. […] a “Vértice” afronta os perigos da censura divulgando de maneira subtilmente velada modos de pensamento, e mesmo orientações ideológicas» (p. 92). E para além dos documentos, a estudiosa teve ainda a oportunidade de socorrer-se de testemunhos insuperáveis, já que teve ocasião de entrevistar, entre 1992 e 1993, protagonistas de excepção como Arquimedes da Silva Santos, Mário Braga (editor durante muitos anos), Mário Dionísio ou Alexandre Cabral, os quais, como se sabe, participaram activamente no programa do neo-realismo, sem esquecer a entrevista a Eduardo Lourenço (de algum modo envolvido nos primórdios da revista, da qual cedo se desvinculou), autor, como se sabe, do estudo magistral “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista” (1ª. ed. 1968). Aqui e ali, porém, o estudo de Viviane Ramond é de certo modo prolixo, reflecte o carácter de trabalho académico que talvez pudesse ter sido expurgado, eliminando aspectos (veja-se, por exemplo, as várias propostas para definir editorial) à margem da essência fundamental da análise.

Estudando as secções da revista mais pertinentes à dinamização de uma ideologia aplicada à cultura concebida em sentido lato, e observando de perto os protagonistas de um projecto que se impôs gradualmente sem um manifesto específico mas à custa de uma teoria que encontrava na “praxis” o seu momento consequencial, o trabalho de Viviane Ramond permite reflectir sobre a função da “Vértice” como porta-voz privilegiado – depois de “Sol Nascente”, “O Diabo” e “Seara Nova” – do movimento neo-realista, mostrando que, se no período analisado a revista não parece reflectir cabalmente a transformação na sociedade e na literatura portuguesas, pelo menos teve o mérito de acompanhar, a partir de 1945, a fase de consolidação do movimento. O suficiente para se detectar a orientação redactorial e ideológica, o princípio essencial e programático de valorização dos escritores e ideólogos que defendiam a representação de uma realidade explicada pela óptica do contexto histórico-social, e uma prática literária tida como motor de difusão de um novo pensamento humanista.

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