A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 40 – por Sérgio Madeira

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Capítulo quarenta

Pouco depois da promoção e da comemoração no restaurante Piri-Piri, quando recebera as «felicitações» do agente Nachawi,  o capitão Guilherme Lopes foi mandado apresentar-se no Comando da Região Militar de Moçambique onde foi informado de que ia substituir um oficial em fim comissão no comando de uma companhia mista de caçadores especiais e  de «flechas», os soldados indígenas integrados nas forças portuguesas. O aquartelamento ficava nas proximidades de Xuvalu – o comando era-lhe atribuído pela experiência que ele tinha da região. O major, não conseguiu evitar um sorriso zombeteiro. Guilherme simulou não reparar na ironia. O «chico-esperto», o «saloio vivaço», tinham ficado submersos por camadas sedimentares de experiências. Duras e amargas algumas delas. Um princípio, um dogma – nunca tentar ganhar uma discussão com um superior hierárquico – quanto maior a vitória, mais penosas as consequências.

Antes de deixar Lourenço Marques, procurou saber onde estava Nachawi. Soube que estivera internado no Hospital Militar e que fora sujeito a uma série de cirurgias. Tivera alta dias antes. Pensou em ir em busca do agente e pregar-lhe um susto, mas o pouco tempo que lhe foi concedido até á partida não lhe deixou tempo para uma tarefa demorada e que lhe pareceu secundária. A seu tempo encontraria o agente e talvez lhe arranjasse outro internamento e cirurgias…

O «quartel» era um conjunto de pavilhões pré-fabricados com um perímetro protegido por postes de cimento com arame farpado e valas onde devia haver água, mas apenas havia lixo, garrafas de cerveja, dejectos…  Tudo estava desmazelado e sujo e nas primeiras semanas, Lopes pusera as instalações e a disciplina em ordem, usando um misto de autoridade e de picardia que agradava aos subalternos. O pelotão de europeus vivera até então completamente aparte dos soldados africanos. O novo comandante promovera um convívio que parecia se bem aceite por todos. E estavam precisamente os oficiais e sargentos num desses convívios, bebendo uma grade de cervejas oferecidas pelo comandante quando começou o bombardeamento.

 

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