Francisco Costa dirigiu-se à sala «da televisão» onde a D. Amália, dona da pensão, lhe dissera estar um senhor à sua espera. Quando entrou, o jovem do panamá e óculos escuros que lia o jornal na esplanada do Nicola e que parecendo estar a observá-los, alarmara Maria, ergueu-se do sofá. Francisco a quem a figura pareceu vagamente familiar disse:
– O que deseja?
Sorrindo, o rapaz tirou os óculos:
– O nosso furriel não me conhece? – estendeu a mão
– Meu alferes, de facto não o conheci – por um mecanismo subconsciente, pusera-se em sentido. O jovem ficara de mão estendida e Francisco só então reparou e apertou-lha. Sentaram-se – Em que posso ser útil?
– Pode ser útil em muita coisa.
-Como?
Calmamente o alferes Guilherme de Sousa expôs-lhe a questão. Precisavam (não disse quem) de retirar um homem do hospital e de o esconder. Havia já um local para o abrigar, mas era preciso alguém que o levasse do hospital para esse sítio.
– E lembraram-se de mim – Porquê?
– Em Xuvalu salvou a vida a uma pessoa muito importante para um outro Francisco…
– Outro Francisco ?
– Sim, salvou a filha de Francisco Kachawa!
– Maria?
– Sim, Maria.
– Mas ela não o conhece. Viu-o no Nicola e teve medo.
– Maria não faz parte da organização.
– E sabem se podem confiar em mim?
– Arriscámos…
– Posso ter poupado Maria, por qualquer escrúpulo, e…
– Denunciar-nos?
– Isso.
Norberto de Sousa riu-se. E a máscara de timidez e bondade foi submersa por uma expressão de uma dureza implacável que provocou um arrepio em Francisco.
– As pessoas que denunciam têm uma estranha tendência para aparecer mortas.
* Sempre bom saber como todo o processo foi urdido -Maria *