João Pedro de Andrade, “Ambições e limites do neo-realismo português” – uma leitura por Manuel Simões

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Um texto de Manuel Simões, uma leitura de uma análise de João Pedro de Andrade às fronteiras e objectivos do neo-realismo português. Foi anteriormente publicado, com algumas variantes, na revista “Rassegna Iberistica” (Veneza), em Setembro de 2003.

 

Publicação comemorativa do centenário do nascimento de João Pedro de Andrade (1902-1974), o volume faz parte de um projecto de edição das “Obras Completas” e reúne os escritos de um crítico que tem sido injustamente esquecido do panorama da crítica das ideias literárias do século XX português, em particular quando se trata do movimento neo-realista, de que foi um atento observador e porventura o que mais acompanhou, em termos críticos, a evolução do grupo desde o seu nascimento oficial (1940 com o romance “Gaibéus”, de Alves Redol) até aos anos 50, isto é, o período que viria a ser designado como o do “primeiro neo-realismo”. Mas João Pedro de Andrade cultivou outros interesses, com a mesma paixão e competência, como testemunham os ensaios “A Poesia da Moderníssima Geração -Génese duma Atitude Poética” (1943) e “O Problema do Romance PortuguêsContemporâneo” (1942), para além da sua actividade de dramaturgo e de crítico de teatro (“Momentos da Nossa Dramaturgia”) e da atenção dedicada ao papel dos presencistas na cultura portuguesa de Novecentos, de que são exemplo os trabalhos reunidos em “Intenções e realizações de ‘Presença’  na prosa de ficção”. E o balanço não ficaria completo se não se referisse o seu estudo biográfico-antológico sobre o autor de “Húmus” (“Raúl Brandão: a Obra e o Homem”), na altura considerado o estudo mais completo e que se pode ainda hoje consultar com interesse: a prová-lo aí está a recente reedição e a leitura que lhe consagrou VítorViçoso, grande estudioso da obra de Raúl Brandão.

O volume, aqui em análise (com introd. de Ernesto Rodrigues, ed. de Joana Marques de Almeida, Lisboa, Acontecimento, 2002), agrupa, como se disse e como o próprio título deixa perceber, os textos de J.P. de Andrade relacionados com o neo-realismo, textos de diversa amplitude que vão desde algumas sínteses notáveis, como as que elaborou para o “Dicionário de Literatura” (1960) dirigido por Jacinto do Prado Coelho: os verbetes sobre o “Neo-Realismo” (pp. 41-49) e sobre “Novo Cancioneiro” (pp. 51-53); a que organizou sobre o conflito de gerações Presença/Neo-Realismo (“Diabo”, 1938), ampliada mais tarde na pertinente análise das posições do presencista Adolfo Casais Monteiro relativamente ao Neo-Realismo (“Diário de Lisboa”, 1966); e as muitas recensões que dedicou às obras de autores explícita ou implicitamente neo-realistas ou na altura conotados com a estética do movimento mas posteriormente excluídos de acordo com a evolução estilística desses autores: é o caso de Vergílio Ferreira da primeira fase, o dos romances “Vagão J” ou de “Manhã Submersa”, que mais tarde se auto-identificou com o existencialismo; ou de Miguel Torga, o autor do romance “Vindima”, com uma atmosfera e situações conflituais do romance neo-realista e que o próprio J.P. de Andrade considera romance demasiado filosófico para romance social (p. 310) mas, na verdade, o Autor, rompendo, como se sabe, com o grupo de “Presença”, nunca seguiu um modelo específico, embora esta obra deixe entrever «notações realistas dum mundo em decadência»(p.312).

No extenso corpus preenchido pelas muitas recensões (pp. 89-321), alguns autores não são ainda analisados na sua verdadeira dimensão, até porque a exegese crítica incide sobre as suas primeiras obras (casos de José Cardoso Pires ou de Carlos de Oliveira, por exemplo). Sobre o segundo é curioso, porém, que o crítico não tenha sublinhado, sem reticências, uma obra que oferecia, desde o início, a novidade de recusar os estereótipos dum modelo. E todavia a sua análise estende-se aos romances “Casa na Duna” (1943) e “Uma Abelha na Chuva” (e, de passagem, a “Pequenos Burgueses”). Deste modo pode até aceitar-se a cautelosa afirmação, feita em 1943, de que Carlos de Oliveira, com o seu primeiro romance, era um romancista «confuso e vago nos intuitos» (p. 190) e esquemático na efabulação da narrativa. Menos aceitáveis os reparos feitos em 1953 a “Uma Abelha na Chuva”, livro de «páginas admiráveis, personagens ricas de seiva, episódios de recorte rigoroso, que se diria necessitarem de outra arrumação» (p. 199), obra que revela «o estofo de um grande romance», faltando-lhe «a concatenação dos episódios numa ordem» (p. 203), talvez porque o crítico preferiria a expressão linear e isenta de retórica, qualidades que põe em evidência no início da recensão a “Casa na Duna” (p. 189).

Maior clarividência parece ter demonstrado em relação a Manuel da Fonseca, apostando na grandeza do poeta já desde “Rosa dos Ventos” (1940) e do prosador que se revelou com o livro de contos “Aldeia Nova” (1942) e com o romance “Cerromaior” (1944). Dissecando a urdidura do romance acodem-lhe fragilidades e restrições que, porém, como confessa, «são só aquelas que as suas invulgares qualidades justificam» (p. 158). Pressente-se que o seu juízo mais do que positivo provém da empatia que se estabeleceu entre o crítico e o romancista, aspecto que o crítico parece justificar quando afirma no exórdio da recensão a “Cerromaior” que, se não se pode confiar no entusiasmo «que leva a proclamar como o escritor mais representativo o recém-vindo que traz na sua bagagem um livro e infinitas esperanças», deve ter-se em conta a situação contextual, isto é, a atitude anterior, que se esgotava em teorias e predicações entre o horizonte quase deserto de obras de verdadeiro interesse»(p. 149). É evidente que os elementos inovativos da obra de Manuel da Fonseca merecem a confiança e o entusiasmo de J.P. de Andrade, intuição que inicialmente não se manifesta em relação a Fernando Namora (veja-se a recensão a “As Sete Partidas do Mundo”, pp. 173-177) mas o discurso sobre este último autor altera-se substancialmente dez anos mais tarde, quer dizer, com outra perspectiva sobre a evolução do grupo, julgando então “Retalhos da Vida de um Médico” um livro ímpar na literatura portuguesa, e “A Noite e a Madrugada” ou “O Trigo e o Joio”, obras definitivas no corpus narrativo do autor (p. 182).

Como evidencia Ernesto Rodrigues na sua excelente “Apresentação” ao volume (pp. 11-20), «temos aqui o melhor balanço da ficção de 40, ou da fase heróica do neo-realismo, em seus expoentes de influência estrangeira e nos autores e títulos nacionais» (p. 19), destacando-se talvez o estudo que empresta o título a esta colectânea: “Ambições e Limites do Neo-Realismo Português”, de 1955. E aqui, às ambiguidades detectadas por Ernesto Rodrigues, sem dúvida caracterizantes da fragilidade de uma metodologia por vezes demasiado identificada com o que se poderia designar como”crítica do gosto”, acrescentaria a perspectiva reticente de J.P. de Andrade em relação ao «recrudescimento duma ofensiva teorética» com António José Saraiva e Óscar Lopes (pp. 38-39), não vislumbrando no trabalho dos dois eminentes renovadores da crítica, mesmo na óptica da história literária, o alargamento e a afinação dos instrumentos de análise, limitando-se a julgá-los como algo que não contribuía «para uma visão serena e objectiva do fenómeno literário» (p. 39), o que me parece no mínimo controverso.

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