O LADO SELVAGEM DO ÊXITO CHINÊS – por HERIBERTO ARAÚJO / JUAN PABLO CARDENAL, texto amavelmente ©cedido por EDICIONES EL PAÍS S.L.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O lado selvagem do êxito chinês

Dois jornalistas viajam pela Europa estudando os métodos de redes de criminalidade económica

O Império construído por imigrantes asiáticos, muitas vezes assenta em pilares escuros

HERIBERTO ARAÚJO / JUAN PABLO CARDENAL,

El lado salvaje del éxito chino

http://politica.elpais.com/politica/2013/11/01/actualidad/1383335233_666458.html

Texto amavelmente cedido por El País

©Cedido por EDICIONES EL PAÍS S.L.

PARTE III
(CONCLUSÃO)

O porto de Nápoles tornou-se um corredor de passagem do contrabando chinês através de ligações e acordos com acordo com a Camorra

E o que é que acontece com tão vultosos lucros ganhos na economia paralela? Uma parte sai em notas de 500 euros escondidas, por exemplo, em pacotes de café ou no interior dos invólucros dos chocolates Ferrero Rocher que levam como prenda para as famílias chinesas quando regressam de férias. Ou então são enviados, como em Itália, sob a forma de remessas falsas que, na realidade, são envios em enormíssima quantidade para pagar a fornecedores. Mas, ao mesmo tempo, uma parte deste capital de origem fraudulenta permanece em Espanha, onde é utilizado para financiar – muitas vezes em condições de usura – a abertura de novos negócios de venda a retalho de outros compatriotas. Isto explicaria, de acordo com a polícia, com os funcionários da entidade tributária e com os membros das unidades anti máfia da Espanha, Itália e França, a rápida proliferação de novos negócios nas mãos da comunidade chinesa, como bares, salões de beleza ou lojas, roupa ou ainda, no caso francês, como os cafés ditos bar-tabac.

A disponibilidade de dinheiro também explica a expansão muito rápida de parques industriais como Cobo Calleja ou como Carrús. Ninguém põe em dúvida a grande capacidade de trabalho da comunidade chinesa e claro está não se deve confundir a parte com o todo e colocar todos os chineses no mesmo saco. Mas uma fonte que conhece o parque de Fuenlabrada desde há mais de duas décadas dá-nos um valioso exemplo ao recordar, por exemplo, como antes da crise “os chineses chegavam com caixas de sapatos com notas de 500 euros e máquinas de contar dinheiro” e avançavam uma parte muito importante do preço do armazém em dinheiro vivo oferecendo, inclusive, um bónus de prémio. Os edifícios chegaram a custar quatro ou 5 milhões de euros em tempos de boom e um outro grande projecto chinês como o complexo comercial Plaza Oriente, com a intenção de criar uma verdadeira Chinatown madrilena, está avaliado em 65 milhões de euros.

H. Araújo y J. P. Cardenal são os autores de La silenciosa conquista China (Crítica, 2011) e acabam de publicar El imperio invisible (Crítica).

Livros dos autores:

 elpaís - IV

elpaís - V

PACIÊNCIA E TEMPO PARA SAIR DA CRISE

ALVARO DE CÓZAR

O reflexo dourado que às vezes irrompe na A-42 passando por Fuenlabrada, dependendo da hora do dia, vem de um prédio estranho, localizado numa das margens da estrada. É o centro comercial Fénix, um mastodonte de vidro e alumínio pintado de vermelho e ouro à saída de Cobo Calleja, no sul de Madrid. O edifício, propriedade da empresa chinesa Don Pin, terminou a construção em Janeiro de 2012. Os seus proprietários anunciaram que este centro iria ser o maior centro comercial para os chineses, um paraíso de lazer que poderia abrigar restaurantes, salas de jogos e clubes nocturnos. Até agora, apenas abriu um supermercado. As outras salas permanecem vazias, embora alguns operadores que trabalham na zona digem que as empresas chegarão em breve.

A Fênix simboliza muitas das coisas que estão a acontecer com as empresas chinesas em Espanha. Para começar, é um exemplo de que a crise os está a afectar. Também a confirmação de que os chineses são pacientes. “Os chineses sabem ter cautela”, diz Pedro Nueno, Professor da escola de negócios IESE, “muitas vezes parece que alguns dos seus negócios falharam e, no entanto, a única coisa que está a acontecer é que eles estão a ir muito devagar.” A Fénix é também um reflexo da nova classe de empresários chineses que fizeram fortuna em Espanha. Um dos seus proprietários, Moadong Chen, tem 33 anos e veio para o nosso país com 18 anos. Não se parece em nada com a imagem do imigrante chinês que não sabe a língua e que vive num mundo fechado e que assim alimentaram todos os tipos de lendas e estereótipos. Moadong é um homem influente na sua comunidade, que domina e fala fluentemente o espanhol e que já passou por vários tipos de negócios e com êxito, desde abaixo até ao cima da escala. ” Essa imagem antiga do imigrante chinês é já coisa do passado”, disse Minkang Zhou, Professor na Universidade Autónoma de Barcelona. “Hoje em dia há duas gerações. A segunda está adaptada. Eles sabem que o mundo está em mudança. Eles trabalharam no duro e têm uma grande capacidade de adaptação, “explica Minkang, apontando como um exemplo da capacidade para o negócio as novas lojas de frutas, as frutarias. “Os chineses sabem que há um risco em tudo, mas vão em frente. Deixam um negócio e montam logo outro “, diz o professor.

A uma curta distância a pé do centro da cidade de Fénix encontra-se a Plaza de Oriente, um parque é inaugurado no início de 2011 e com uma festa de dragões e lanternas e em que teve a participação de políticos e outras personalidades, com a promessa de que se iria converter no centro do comércio chinês em Espanha. Nada disso ocorreu nos meses seguintes. O parque definhou primeiro e, em seguida, ressurgiu com outro modelo. Os seus 80 armazéns dedicam-se agora a vender sapatos por atacado. Todos eles são explorados por chineses menos um, que está nas mãos de um espanhol, que concorre contra eles pela baixa dos preços e a distribuir menos sapatos por caixa. Um tipo que se adaptou. E à boa maneira chinesa.

HERIBERTO ARAÚJO / JUAN PABLO CARDENAL, El lado salvaje del éxito chino – Dos periodistas recorren Europa estudiando los métodos de las redes de delitos económicos El imperio levantado por inmigrantes asiáticos se sustenta muchas veces sobre pilares oscuros.

Jornal El País, 3 NOV 2013, Direito de Tradução e edição ©CEDIDO POR EDICIONES EL PAÍS S.L.

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Para ler a Parte II deste artigo de Heriberto Araújo e Juan Pablo Cardenal, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/29/o-lado-selvagem-do-exito-chines-por-heriberto-araujo-juan-pablo-cardenal-texto-amavelmente-cedido-por-ediciones-el-pais-s-l-2/

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