POESIA AO AMANHECER – 332 – por Manuel Simões

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Depois dos poetas angolanos, apresentamos uma antologia de poetas de Moçambique, começando precisamente com

                                                   RUI DE NORONHA

                                                                           ( 1909 – 1943 )

            SURGE ET AMBULA

            Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.

            Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo…

            O progresso caminha ao alto de um hemisfério

            e tu dormes no outro o sono teu infindo…

 

            A selva faz de ti sinistro eremitério

            onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo…

            Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério

            e tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo…

 

            Desperta. Já no alto adejam negros corvos

            ansiosos de cair e de beber aos sorvos

            teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula…

 

            Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno…

            Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno

            que a mão te estende e diz: – África, surge et ambula!

 

            (de “Poesia Africana di Rivolta”)

 Antologiado em várias colectâneas, designadamente em “Letteratura Negra. La Poesia” (Roma, 1961), e “Poesia Africana di Rivolta” (1969). Os seus poemas foram recolhidos, em parte, no volume “Sonetos” (s/d).

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