APRESENTAÇÃO DE UMA NOVA SÉRIE, FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – Por JÚLIO MARQUES MOTA

Parte II

(continuação)

No texto de Jan in’t Veld, podemos ler, no quadro de uma análise séria mas feita dentro dos limites do modelo neoliberal europeu e do seu quadro conceptual, que tudo o que tem estado a ser feito tem tido custos elevadíssimos que se têm escondido e,   se os custos têm sido enormíssimos para os países em dificuldades, não são  insignificantes para os do núcleo central da zona euro. Não pondo em causa o modelo, este autor põe  em causa claramente a metodologia de política  económica seguida e o comportamento de uns e de outros, o dos que impuseram e o dos que cumpriram. E assim a Europa tem estado a ser destruída. Um pequeno excerto deste trabalho extremamente sério mas extremamente balizado pelo corpo teórico dos trabalhos da Comissão Europeia, um trabalho que deve ser, depois, relido, depois de se ler o texto da Cruz Vermelha Internacional,  para se ter uma melhor dimensão social do que aqui tecnocraticamente se escreve e se fala, ou seja, dos efeitos devastadores da crise, tanto os efeitos imediatos, já conhecidos, como os efeitos a prazo, desconhecidos, sendo certo  de que se têm a ideia de que o pior ainda está para vir à superfície.  Mas é um texto importante, muito importante mesmo. E é  um texto do economista-chefe da modelização económica  da Comissão Europeia a dizer o que diz!. Nele pode-se ler:

“ Os prémios de risco soberano mais elevados nos últimos anos devido às incertezas relacionadas com os efeitos de reacção entre bancos e soberanos e com a ideia de risco por redesignação de activos  têm reduzido ainda mais o crescimento  económico. No entanto, a dependência assumida no modelo quanto aos spreads soberanos relativamente aos rácios de dívida pública actual implica  uma miopia pelo  lado dos mercados financeiros, como se os investidores não reconhecessem  a queda acentuada [obrigatoriamente assim pois a dívida sobe e o PIB desce]  na dívida soberana que se seguem às  consolidações no médio prazo. Se em contraste os mercados financeiros fossem mais lúcidos e capazes de olhar para o futuro (more forward-looking)  reconheceriam  as melhorias de longo prazo sobre os  rácios de dívida, e os spreads soberanos baixariam  imediatamente quando um país começasse a consolidação.

A conclusão de se ter encontrado grandes  efeitos negativos sobre a produção e as repercussões negativas significativas não implicam que as consolidações orçamentais deveriam ter sido evitadas. Os países altamente endividados enfrentaram a pressão dos mercados financeiros, e em alguns casos perderam completamente acesso aos mercados, e um ritmo mais lento de consolidação poderia, de um modo geral,  ter levantado receios  de uma entrada em situação de incumprimento.

Tais expectativas de incumprimento  podem levar a resultados de crescimento piores ainda do que as consolidações em si-mesmas  (Corsetti et al (2012), Roeger e in’t Veld (2013)). A questão fundamental é a do  ritmo apropriado para as consolidações. Por um lado pode-se argumentar que tanto quanto  prevalecerem as condições de crise, um ritmo mais lento, ou seja,  transferindo  algum do ajustamento necessário para mais tarde, pode ser prudente e para que uma parte da carga possa  ser transmitida para  um período longo, quando as condições melhoraram e os multiplicadores forem  menores, ou seja, quando se reduzirem as restrições de crédito e a política monetária puder  ser eficaz a apoiar o crescimento. Porém, uma adaptação mais gradual requer  uma estratégia de consolidação credível  de longo prazo, concebida  para evitar reacções adversas dos mercado financeiro à imposição governamental de  um ritmo mais lento de consolidação. O desafio é encontrar o ritmo certo para alcançar esta credibilidade, evitando tanto quanto possível os efeitos adversos do crescimento a curto prazo. As repercussões negativas da consolidações em países excedentários  levanta a questão se um estímulo temporário em países de notação AAA  poderia ajudar no necessário processo de reequilíbrio na zona  euro. Embora o impacto sobre as balanças correntes  seja na verdade  modesto  este  claramente não pode ser visto como  um substituto para as [necessárias] reformas nos países deficitários, esse comportamento dos países excedentários  iria apoiar o seu próprio crescimento e os seus  efeitos de repercussão  sobre os países da periferia em dificuldade facilitaria e ajudaria mesmo o processo de ajustamento levado por estes a cabo com a sua política de consolidação.”

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Para ler a parte I desta apresentação de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/03/apresentacao-de-uma-nova-serie-falemos-de-economia-fale-entao-de-politica-por-julio-marques-mota/

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