Bom dia, Copacabana – por Catarina Pereira

Um Café na Internet

Só depois de um bom pedaço de calçada, ela percebeu que tinha companhia. Um animal  pequeno, o pêlo absolutamente branco, cara de cachorro e ares de ovelha a seguia de perto,  saltitante. Era cada vez mais difícil andar pelas ruas e elementos tão inofensivos quase sempre  passavam despercebidos, a atenção concentrada na buraqueira do calçamento, nas bicicletas  desgovernadas e, como se não bastasse, nos pivetes, reunidos em bandos a cada esquina.  O bicho usava uma coleira de couro e laços cor-de-rosa ridículos nas orelhas. Ela riu. Olhou  em volta, procurando-lhe o dono. Era domingo, muito cedo, e além do casal de mendigos  dormindo sob a marquise mais próxima, não havia ninguém na rua. Enfim, deu de ombros e  seguiu seu caminho.

Três passos à frente, estacou. Dominada por uma suspeita quase certeza e ainda tentando  se agarrar a uma confiança fugidia, virou a cabeça devagar várias e várias vezes, examinando com  minúcias o lugar em que estava. E cada vez era como a primeira. Não reconhecia nada. Tinha  saído da padaria pela porta de sempre – disso estava certa – mas a rua, surpreendentemente  desconhecida, era como um disparate onírico. O sonho muito ruim ficou ainda pior instantes depois,  quando ouviu, quase ao mesmo tempo, um ruído de motor, uma buzina estridente e uma voz irritada berrando “sai da rua, vovó”.

A moto passou rente e ela pulou de volta para a calçada, uma agilidade só justificada pelo  susto. Perplexa e um pouco tonta, apoiou-se à parede mais próxima. Nenhum pesadelo podia ser tão  real. Ela estava na rua, decididamente acordada. E completamente perdida. Tateando, alcançou  os degraus da portaria de um prédio. Sentou-se, o corpo tremendo, respirou fundo, fechou os  olhos. Deixou-se ficar longos minutos numa espécie de transe, escuridão de olhos fechados e  cabeça oca.

Despertou ao som dos latidos insistentes entrecortados por lambidas no tornozelo e  puxões fortes na barra da bermuda. A primeira coisa que pensou foi na chatice daquela criatura.

Afastou-a com um sacudir de perna. Sem demonstrar o menor ressentimento, a cachorra voltou no mesmo pé e sentou-se colada a ela. Latiu mais uma vez. Apesar de tudo, ela sorriu. Levantou a  mão direita para afagar-lhe o dorso e percebeu, entre os dedos crispados, uma guia de coleira. Na outra mão, também contraída, uma sacola de plástico azul e um evidente saco de pão suado.

Então as coisas já estavam um pouco mais claras. O cachorro era dela, embora não se  lembrasse de um animal de estimação. Também não sabia o nome do bicho e não se imaginava  pondo lacinhos nas orelhas do infeliz. Ela estava voltando da padaria, muito perto de casa, e aquilo  tudo era outra das deslealdades da sua memória, cada vez mais desatenta e antipática.

“Vai pra puta que te pariu!”. A resposta tardia e inútil ao motoqueiro atrevido foi emitida  com a voz firme de quem já se tinha de novo sob controle. Ou mais ou menos.

A verdade era que não conseguia se lembrar do nome da rua em que estava, nem do  endereço de casa. Concentrou-se nesse ponto. Num tempo que pareceu de poucos segundos,  lembrou-se com detalhes de todos os lugares em que havia morado nos últimos oitenta e dois  anos. Até dos mais difíceis como o SQS 209/10, bloco B, entrada A, apartamento 301, em  Brasília. Num misto de irritação e desânimo, deu um safanão no ar. Montoeira de informação sem  serventia. Com a cabeça tão cheia de bobagens, não era de se espantar que esquecesse coisas  importantes. Sentiu um aperto no estômago. Desfiou os nomes completos dos três filhos, sete  netos, da bisneta e até o do marido morto, não muito saudoso. Estavam todos ali, inclusive os  rostos sorridentes. Respirou fundo, aliviada.

A cachorrinha, estendida no mármore preto, acompanhava com olhos inquietos cada  pequeno movimento. Ela colocou de lado a sacola de pão e a guia, cruzou as mãos no colo,  recostou-se na grande porta de ferro e vidro. Uma nesga de sol aqueceu suas pernas. Já era ruim se  ver desmilingüindo dia a dia no espelho. Pior ainda saber que sua mente estava se tornando um  poço sem fundo. Sacudiu a cabeça com energia.

Desviou-se do pensamento angustiante. Tudo o  que precisava fazer era se dedicar mais às palavras cruzadas e às caminhadas no calçadão.

Para que lado será que ficava o calçadão? Dali podia ver algumas árvores, duas bancas de  jornal, dezenas de carros estacionados, aquela sujeira crônica e entranhada típica de Copacabana, mas não o mar.

O movimento aumentava junto com a luz do sol e ela sabia que logo a quietude seria  substituída pelo tumultuado ir e vir da praia, uma multiplicação sem fim de pivetes barulhentos e  assustadores que só parava lá pelas quatro horas da tarde. Por causa disso, dificilmente saía de  casa em domingos assim, ensolarados. Só mesmo para ir à padaria, de manhã cedo. O que a trazia  de volta ao começo.

Um homem saiu pela outra folha da porta e parou ao seu lado. “Tudo bem aí, vovó?” Bem  mais simpático que o motoqueiro filho-da-puta. Ela respondeu sim, só estava descansando.

Dizer o quê? Não, saí para comprar pão e não sei voltar para casa? E depois? Andariam pelas  ruas até ela reconhecer ou ser reconhecida por alguém? E convenceria os filhos de que tudo não  passava de uma coisinha à toa, nada que merecesse um grande alarde, uma pessoa estranha  tomando conta dela como de uma criança?

O nome das ruas e o do bichinho que ressonava ao seu lado ainda eram um mistério  insondável. Mas não podia ficar sentada ali o dia todo. Tinha que dar um jeito de chegar em  casa. Decidiu andar em volta da quadra. Espanou com as mãos a poeira que possivelmente se  acumulara na roupa.

Pegou a sacola com o pão. E, o cachorro parecia ser mesmo seu, prendeu a  guia na coleira.

O animalzinho se levantou num pulo. Esticou as patas dianteiras, sacudiu a poeira do pêlo,  se empertigou na calçada. Ela se levantou devagar e quase caiu logo em seguida, puxada pelo  cachorro ensandecido na ponta da coleira que, de um momento para o outro, parecia determinado a  chegar a algum lugar. Aonde, ela ia pagar para ver. Segurou a guia com força. Era um tanto  humilhante a idéia de que aquela bolota irracional de pêlos e pulgas fosse capaz de chegar em  casa antes que ela pudesse se lembrar do nome da rua. Mas a opção era vagar pelo bairro, no meio  da muvuca domingueira. Resignada, deixou-se arrastar.

Eram muitos obstáculos, buracos, postes, canteiros, orelhões, fradinhos, sem falar nas pessoas  carregadas, cadeiras de praia, guarda-sóis, caixas de isopor. Levaram uma eternidade para chegar  à esquina.

A cachorra, ofegante, insistia em seguir sem descanso para a direita. Mas ela parou, o  coração aos pulos. Mal tirou os olhos do chão e se viu na avenida Nossa Senhora de  Copacabana. Uma quadra adiante, depois da praça, o calçadão. Tudo claro e nítido como se o sol  tivesse iluminado um canto escuro do seu cérebro. Virou à direita, os passos curtos em velocidade  máxima, arrastando a cadelinha atordoada. Pegou o molho de chaves no fundo da sacola.

Cruzou acelerada o saguão do prédio, só parou dentro do minúsculo e rangente elevador  de serviço, obrigada a apertar sem trégua o botão do quarto andar, porque senão aquela merda  velha passava direto.

Abriu todas as cortinas e janelas do apartamento, deixando entrar o sol que queimava o  forro do sofá, a brisa do mar que corroía as entranhas da televisão, a poeira preta que se depositava  nos móveis e o barulho ensurdecedor do trânsito, tudo, de repente, fonte de prazer e aconchego.

Não que se sentisse completamente recuperada. Uma pontinha de dor de cabeça e um  desconforto no peito, indefinível entre aflição e mágoa, sugavam suas forças. Exausta, afundou o  corpo no sofá e cochilou. Dez minutos depois, se espreguiçou, bocejou longamente. Sentou-se, aprumada.

Desde que se percebera de volta à segurança de casa, tentava encontrar a ligação entre  ela e o cãozinho meio ovelha que, mal libertado da coleira, havia corrido para a área de serviço,  uma sem-cerimônia só esperada dos muito íntimos. Contra todas as evidências, só conseguia a  firme convicção de nunca tê-lo visto antes.

Decidiu pôr o enigma de lado. Sabia-se numa armadilha. Logo que desistisse, as  lembranças voltariam. Além do mais, estava com fome, o pão já devia estar frio. Tinha muita  coisa para fazer. Havia prometido uma torta de maçã para os dois netos mais novos que viriam  depois da praia. Sorriu ao pensar nos garotos agitados, entrando pela casa aos esbarros, só  passando por ela para dizer “Oi vó, cadê a Menina?”

Apoiou-se no braço do sofá e começou a se levantar lentamente. Na metade do caminho,  quase gritou. Claro. Menina. A poodle toy que só faltava falar. Presente dos netos no aniversário  de oitenta anos.

Sentou-se novamente e a chamou. A cachorra veio em disparada, derrapando no assoalho  encerado, pulou desajeitada no colo dela. Caíram as duas sobre as almofadas. Logo depois, em  meio a risadas e latidos, foram até a cozinha. Com cuidado, ela tirou os laços de fita das orelhas  do animal. Sempre achara que só pessoas de miolo mole paramentavam cachorro feito gente.

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