Alfredo, estivera em contacto com colegas do Hospital Dr. Nélio Mendonça, do Funchal. Foi mantido ao corrente da evolução do estado de saúde de Manuel. Quando Alfredo telefonou da primeira vez, António e Cecília estavam junto dele. Manuel estava inconsciente. Uma bala penetrara-lhe na região mamária e outra no braço direito. As radiografias do tórax. A simples e a de perfil não tinham sido muito esclarecedoras. O ecocardiograma detectou o projéctil no espaço pericárdico. E Alfredo, com o telefone em alta voz, foi anotando os valores:
– Acho que se safa – disse quando a chamada chegou ao fim com a informação de que Manuel estava no bloco operatório. Cecília objectou.
– Mas se está inconsciente. – Alfredo repetiu:
– Acho que se safa – e acrescentou – a bala não atingiu nada de vital. Mas há sempre o perigo da bala migrar…
Foram deitar-se, Quando se encontraram para tomar o pequeno-almoço, as notícias eram boas. Manuel fora operado com êxito – o projéctil fora removido.
Pouco depois das nove, equipados a preceito, fatos de treino e sapatilhas, António e Alfredo iniciaram a marcha pelo areal. Como habitualmente, Cecília ficou na esplanada do snack bar que o hotel tinha instalada em plena praia, lendo um livro interminável, a chamada «leitura de aeroporto», um dos misteriosos e volumosos romances do Dan Brown. Percorridas algumas escassas centenas de metros, o “veterano” António, descalçou as leves sapatilhas desportivas, transportando-as na mão e abriu os fechos de correr das pernas das calças do fato de treino, arregaçando-as quase até aos joelhos, pois as ondas, ainda que suaves, molhavam-lhe os pés e, por vezes, as pernas. Alfredo seguia-lhe os gestos e fazia o mesmo. Ao cabo do primeiro quilómetro, sentia já algum cansaço; quando completou o segundo, ofegava moderadamente. António, olhava à socapa, observando os inequívocos sinais que Alfredo ia apresentando. Falaram de várias coisas. Das notícias que tinham lido enquanto tomavam o pequeno-almoço, do Iraque, das torturas infligidas pela CIA aos presos da Al Qaeda em Guantánamo, do Sporting e do trabalho de Paulo Bento, com picardias a intrometerem-se entre a objectividade que sempre juravam respeitar quando começavam a falar de futebol. Mas, como era inevitável, voltaram ao assunto dominante. Os cerca de seis quilómetros foram cobertos sem esforço aparente por António. À chegada à Ponta da Calheta, Alfredo ia levemente ofegante,
Aníbal que, da esplanada, acompanhara as últimas centenas de metros, tinha o café de António já tirado. Alfredo não permitiu que o bebesse de imediato, Da bolsa, tirou um tensiómetro. Depois de medir a tensão arterial ao amigo e de dizer que estava óptima beberam então os cafés. Alfredo estava a medir a tensão da D. Mary, com Aníbal a arregaçar a manga para se lhe seguir Quando, vindo do parque de estacionamento, chegou o tenente Fragoso.. Parecia preocupado e cansado.
– Logo isto havia de acontecer agora, quando estou quase a ser substituído. Bem quis passar o caso de ontem para a Polícia, mas este crime também se deu na praia – e acrescentou – Segundo os primeiros exames da balística, o general africano foi morto pela mesma arma que matou o sargento.