EDITORIAL – NELSON MANDELA, UM GRANDE HOMEM QUE NÃO ERA SANTO

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A maioria das pessoas está de acordo que a homenagem a Nelson Mandela é inteiramente merecida, insistido no aspecto de ele ter optado pela via pacífica para conseguir que o desmantelar do apartheid fosse levado a cabo. Não será descabido pôr a questão: o que teria acontecido se, por exemplo, ele tivesse morrido na prisão? Muitos sul-africanos que lutaram contra o apartheid foram assassinados. E se lhe tivesse acontecido o mesmo?  Sem dúvida que a história teria sido diferente, porque seria difícil que o seu lugar fosse preenchido por outra pessoa com as mesmas qualidades humanas e políticas. Nelson Mandela, com a sua invulgar inteligência e enorme generosidade, foi o grande responsável pela condução do processo que pôs fim ao apartheid, e por a República Sul-Africana se tornar um país onde vigora a democracia representativa, em termos iguais para todos os cidadãos, independentemente da cor da pele, ou da ascendência étnica, conforme se prefira dizer.

É importante perceber que Mandela optou por uma dada via, não por ser um pacifista convicto, mas porque em cada passo procurou fazer o que era mais adequado. Quando estava preso recusou ser libertado incondicionalmente, porque sabia que, para conseguir afastar o apartheid, tinha de negociar de igual para igual, mantendo todas as opções em aberto, e nunca a partir de uma posição de inferioridade. Optou por uma via pacífica, porque sabia que seria a menos dolorosa, e assim teria mais possibilidade de granjear e manter o apoio internacional, decisivo para a causa de um povo espezinhado e atormentado por problemas de toda a espécie. Sabia também que o seu país seria muito afectado por uma saída em massa da população branca, detentora da maioria da riqueza. E, sendo um homem justo, não podia esquecer que os ascendentes dos afrikaners se começaram a estabelecer no Cabo a partir do século XVII.

No Observer de hoje, Andrew Rawnsley escreveu um artigo intitulado Nelson Mandela: a shining lesson that politics can be a tremendous force for good, cuja leitura se pode fazer em:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/08/politicians-should-learn-from-mandela

Com a devida vénia, ao autor e ao jornal, pedindo-lhes que levem em conta a importância da causa e o tempo em que estamos, traduzimos a seguir um parágrafo, que nos parece resumir de forma exemplar o homem político que foi Mandela, sendo particularmente interessantes as referências às posições do establishment britânico:

 “Ainda assim foi-lhes estendida a mesma mão amigável que anteriormente tinha apertado a dos Afrikaners. Mandela tinha a sabedoria necessária para conseguir perceber quando a luta deve dar lugar à negociação. Há um tempo para tudo. Um tempo para o amor e outro para o ódio. Pôs em prática o conselho do  Livro de Salomão e levou a palma sobre os camaradas que ansiavam pela desforra sobre a população branca. Todas as homenagens celebram o seu perdão transcendente e a sua magnanimidade sobre-humana. Têm razão. Mas é essencial recordar que o bálsamo da reconciliação que caracterizou a sua presidência não era uma conversa de chacha. Partia da apreciação cuidadosamente pensada que ligar os brancos à “Nação do Arco-Íris” constituía o único caminho seguro para se alcançar um futuro pacífico e próspero no seu país”.

Mais adiante, Rawnsley refere como Mandela ficaria diminuído se o colocassem num altar, e que nunca o desejou. Os seus sacrifícios pessoais seriam altamente desvalorizados. Encolerizava-se com a ideia de que o pudessem tratar como a um semideus, dizendo que assim deixaria de ser um ser humano. Rawnsley assinala ainda que, por maiores que tenham sido os erros que cometeu, são pequenos ao pé do que conseguiu, ao salvar o seu país de uma guerra racial e construir uma democracia estável, objectivos que muitos julgavam inatingíveis no contexto anteriormente vigente.

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