Um estádio de futebol corresponde, em geral, à fase de estabilização do esporte inventado pelos ingleses na metade do seculo XIX. Por isso mesmo, os primeiros estádios estavam na Inglaterra, enquanto nos outros países, sedes de exportação do “association football”, como a Itália, Portugal e Brasil, em geral os mesmos começam a surgir com o século XX.
O estágio precedente ao estádio é o “campo de futebol”. Nesse não existiam lugares para que os expectadores neles pudessem sentar. Na terra de origem do logo popular esporte, os primeiros campos são adaptações dos originários espaços da prática do cricket ou do rugby. Neles os ainda somente quase torcedores permanecem em pé, em circulação pelas linhas limítrofes do campo, pelos 90 noventas minutos da partida. O mesmo, em geral, acontece nos países importadores, novas sedes da prática do esporte que se fará o mais popular e em todo o mundo.
O “campo” é o marco inicial de todas as histórias do futebol dos diversos países. No Brasil, como em Portugal e na Itália, o futebol entra nos anos finais da era oitocentista. Logo depois ali se expande, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas logo em seguida por quase toda a imensa dimensão territorial do interior brasileiro. Assim acontecendo, o campo de futebol faz-se igualmente ponto originário de novos lugarejos, juntando-se àqueles outros fatores historicamente essenciais para a melhor compreensão da evolução demográfica do país, como a presença de um rio; a existência da capela que une os primeiros habitantes de um novo posto etc., etc. Nas primeiras décadas do século XX, o campo de futebol se inscreve na evolução demográfica brasileira como um novo fator de grande importância. Esta é a tese que enuncio no meu O Futebol brasileiro – Bicampeão do mundo (Ed. Anuário da Literatura Brasileira, RJ, 1962). Nele escrevo, às páginas 114-115:
“O campo de futebol cria, de forma direta, o grupo. Mais tarde, quando o grupo já se apresenta estabilizado, estabilidade resultante do compadrismo, da compra na mesma venda, da produção de produtos similares, da cantoria no chão batido em frente à casa, da confraternização amigável das donas de casa, deperta-se o sentido místico das organizações grupais brasileiras, a igreja. A capela se levantava. Agora, o lugar está completo. A igreja e o campo de futebol são os seus elementos substanciais.
O campo de futebo inverteu a história das
povoações. Antes os lugarejos nasciam em redor da capela.
Quando o lugarejo se transforma em vila, o campo
se faz maior. Já não é mais aquele acanhado, brotado do chão, sem técnica alguma. O campo da vila aproxima-se do melhor. As medidas são contadas – somente a usura de possuidores absolutos de terras impedirá que a vila tenha o seu campo certo -, o muro veda a invasão indevida – mesmo de bambu, quando o comércio não ajuda na construção de um de tijolos e cal -, a torcida tem lugar para se instalar – bom quando existem as sombras enormes das árvores mais velhas que o campo para servirem de arquibancadas – e, nos grande jogos, o giz branco marca as sete linhas, encantando as vistas, já maravilhadas com a riqueza das redes dos gols. “
O campo de futebol de Veneza, transformado igualmente em um estádio, comemora agora seu Centenário. Trata-se do estádio Pierluigi Penzo, inaugurado aos 15 de novembro de 1913 – o segundo mais antigo da Itália, sendo o primeiro o Luigi Ferraris, de Genova, levantado em 1911 – e dedicado ao aviador veneziano, herói da Guerra de 1914-18.
O Estádio Penzo está situado na ilha de Santa Helena, aquele ponto veneziano que prolonga os chamados Giardini, a sede estável da Bienal de Arte, dando de frente para aquela outra grande ilha, o Lido, sede balneária da cidade dos Dogi, ainda mais famosa depois do aparecimento do filme de Visconti, Morte em Veneza, do romance do mesmo nome, do alemão-brasileiro Thomas Mann. Ir de vaporeto até Sant’Elena nos dias das partidas do Veneza é já uma grande festa. O vaporeto chega no embarcadeiro situado à margem de um grande jardim cheio de árvores. Penetrando mais para o interior da ilha, passando diante de muitos bares e restaurantes, logo aparece o Penzo. Trata-se, hoje, de um estádio de capacidade para até 20.000 expectadores – números que não são vistos desde que o Veneza caiu vertiginosamente de categoria nos campeonatos italianos. Por poucos anos esteve na série A, passando em modo mais estável para a B, possivelmente
a sua mais justa posição. Depois foi a grande crise: o clube passa para as séries inferiores, fazendo com que o Penzo não visse mais as suas melhores assistências. Atualmente o Veneza encontra-se em recuperação, partecipando da série C. No decorrer desses cem anos, o estádio assistiu a muitos episódios de gloriosas conquistas, como aquela da Copa Itália, de 1941, bem como assistiu às exibições de campeões como o legendário Valentino Mazzola, morto no dia 26 de maio de 1949, no desastre aéreo de Superga, no retorno de uma partida disputada pelo grande Torino em Lisboa. Um dos seus filho, Ferruccio Mazzola, teve brilhante passagem por Sant’Elena. Outra personagem de grande brilho no Veneza dos nossos dias foi o uruguaiano Recoba que encantou os milhares de torcedores do clube verde-preto, os mesmos que até então acompanhavam as partidas, hoje quase desertas.
De certa maneira, eu também estou ligado ao Penzo. Por exemplo, assisti à famosa partida do campeonato de 1998-99 entre Veneza e Bari que acabou num tribunal e eu com ela. Jogava então no Veneza o centro-avante brasileiro, Tuta. Durante a partida citada que, chegada a um 1X1 parecia que não queria modificar tal resultado, com os jogadores, mais que jogar, passeavam pelo campo, evitando ao máximo de aproximar-se do gol adversário, de repente o técnico do Veneza faz entrar Tuta. Este, com o seu costumeiro grande movimento nas áreas adversárias, numa jogada irresistível marca o 2 a 1 para o Veneza. Então, invés de ser festejado pela sua esquadra, Tuta se viu só, enquanto os seus companheiros retornavam cabisbaixos ao centro do campo. Aqueles do Bari parecia que chegariam a agredir os venezianos pela mudança do resultado da partida. Os expectadores logo viram em tudo isso uma clara trama de combinação pelo empate que salvava definitivamente ambas as equipes do rebaixamento para a série C. Assim também pensaram as autoridades esportivas e o Tribunal de Veneza. Este, no dia 9 de fevereiro de 1999, realizou uma audiência para que, assim, a Procuradoria da República da cidade pudesse averiguar sobre o honestidade dos jogadores que participaram na partida. Nessa audiência a figura central era Tuta. Para interrogá-lo a Procuradoria quis de todo o jeito que o intérprete fosse o professor titular de português da Universidade de Pádua, Sílvio Castro. Na audiência citada fiz com que Tuta evitasse de pronunciar uma só palavra do seu italiano macarrônico. Dirigi de tal maneira o dito interrogatório que a Procura absolveu não somente Tuta, mas declarou que os clubes partecipantes na indigitada partida não tinham cometido qualquer ato ilegal. No final de tudo me pediram a conta pelo meu trabalho de intérprete e tradutor. Cobrei então, seguindo as tarifas da associação da categoria, 800.000 liras, o correspondente a, mais ou menos, 400 euros atuais. Recordo que o euro entrou em circulação em 2002. Mas o Tribunal de Veneza, até hoje, não me pagou nem em liras, nem em euros…
