SUSANA MARIA, por MARGARIDA RUIVACO

Um Café na Internet

Susana Maria

No banco de pau de uma fila do meio, S´sanita rejubila, brilha, eleva-se no ar como o fumo do incenso.

Assim de repente, com as suas tranças ruças, amarradas com um elástico com bolas a imitar cerejas e o vestido aos quadrados com um bolso gigante à frente e com folhos a toda a volta, é a pessoa mais alta do mundo.

As meias enrodilhadas nas pernas esqueléticas, os sapatos de pano, já por um fio, tornam-se invisíveis e, por momentos, esquece que a fome é real. Não falta muito para a hóstia, mas que caraças, não tem o tamanho de uma bolacha, quanto mais de um papo-seco…

O coração explode de alegria e olha por cima do ombro, confirma que os irmãos, ainda que mais altos, não passam de pontos minúsculos, sentados ao seu lado, vistos do alto das nuvens.

Mesmo ao longe, consegue ver-lhes os olhos brilhantes, os encontrões cúmplices de ombros, os sorrisos que dizem tudo, que a reverenciam.

– Olha, ´Sana, é para ti!

E é mesmo. O momento alto da semana, repetido ao domingo de manhã, todos os domingos.

O órgão, velho, geme. A menina do órgão, nova, faz caras estranhas, estica as mãos, prime pedais. O coro, medíocre, esganiça-se ao lado do altar e  o povo canta, pedindo auxílio.

Susana voa, e sonha. Senta-se no trono de Deus, segura o bastão dos reis, envolta no manto de veludo  vermelho, com gola de pelinho branco.Respira fundo, emocionada. É a ela que clamam todos os fiéis da Terra.

– …Hossana, Hossana, Hossana nas alturas…

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