A NOSSA RÁDIO – EVOCANDO O PROGRAMA “EM ÓRBITA” – 1 – por Álvaro José Ferreira

Imagem2

Imagem1

Elenco do “Em Órbita” em 1968 (da esquerda para a direita): Pedro Albergaria, Cândido Mota, Jorge Gil e João Manuel Alexandre

No dia 1 de Abril de 1965, às 19:14, começava, na frequência modulada (FM) do Rádio Clube Português, aquele que viria a tornar-se um dos programas de maior culto nos anais da rádio em Portugal: o “Em Órbita”. Nessa emissão inaugural, os primeiros sons são os do instrumental “Revenge” [“Vingança”], dos britânicos Kinks, tomado como indicativo, surgindo depois a voz de Pedro Castelo, que se manterá na locução durante um ano, cedendo então o lugar a Cândido Mota. O âmbito editorial do programa é bem definido desde o início:

– Divulgação, em exclusivo, das realizações mais representativas da música popular anglo-americana.
– Destaque muito particular ao LP em detrimento do “single”. O primeiro enquanto prova múltipla de capacidade contra o carácter eventual do segundo.
– Destaque muito particular aos autores-intérpretes em detrimento dos intérpretes que não criam.

Bob Dylan, Joan Baez, The Byrds, Crosby, Stills & Nash, Neil Young, Simon & Garfunkel, Peter, Paul and Mary, Procol Harum, The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Nina Simone, Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, The Mamas & the Papas, Donovan, Cat Stevens, Fairport Convention, The Beatles, The Rolling Stones, Kinks, Bee Gees, Spencer Davis Group, Traffic, The Animals, Small Faces, Cream, Led Zeppelin, Deep Purple, Mandred Mann, The Who, Jethro Tull, Pink Floyd e Moody Blues contam-se no extenso rol de artistas divulgados, muitos dos quais em primeira mão no éter nacional.
Em Agosto de 1967, é aberta uma excepção para um tema português, “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, pelo Quarteto 1111. Tal opção, pelo ineditismo de que se reveste, requer uma explicação ao auditório. Jorge Gil redige, para o efeito, um texto que Cândido Mota lê ao microfone e que, por permanecer perfeitamente actual, aqui se transcreve na íntegra (para que sirva de lição aos directores de rádios e fazedores de ‘playlists’ que veneram a escória vinda de fora, bem como os subprodutos internos dela macaqueados, e ostracizam a criação de matriz portuguesa, feita com cuidado e bom gosto):

“Em Órbita” vai proceder hoje à transmissão de um trecho de música popular portuguesa. Porque se trata de uma medida sem precedentes neste programa, e por termos o maior respeito pela nossa própria coerência e por todos quantos nos acompanham  com a sua adesão consciente e construtiva, têm pleno cabimento algumas palavras introdutórias ao trecho que vamos apresentar. Desde sempre que alguns dos mais conhecidos intérpretes e conjuntos portugueses de música ligeira nos têm procurado, seguindo modalidades várias de aproximação no sentido de “Em Órbita” divulgar as suas respectivas realizações, em amostra, em disco ou em registo magnético. Em face dessas sucessivas tentativas, sempre nos recusámos a elas aludir, por considerarmos que a totalidade dessas realizações não justificava o nosso interesse em abrir excepções, quer por entendermos que a sua transmissão iria ocupar tempo que poderia ser preenchido com larga vantagem pela nossa música habitual, quer por considerarmos que nenhuma delas reunia as condições mínimas para poder representar qualquer coisa de semelhante a uma tentativa honesta e inédita do lançamento das bases da música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteiro, de alto a baixo.
Por várias vezes e sob diversos pretextos, temos aqui exprimido alto e bom som que somente transmitiríamos qualquer modalidade de música popular portuguesa que tivesse um mínimo daqueles requisitos que poderemos condensar assim:
1. Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.
2. Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo-internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.
3. Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Benidorm.
4. Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse, de forma a não deixar dúvidas, o apelo a uma imitação grotesca do que se faz no estrangeiro, quer na forma de cópia pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
Estes, portanto, os requisitos mínimos que sempre exigimos a nós próprios e aos que nos procuraram com pedidos de transmissão. Nunca nos limitámos, porém, a uma recusa seca e peremptória. Os nossos pontos de vista sempre os exprimimos desenvolvidamente, em particular e em público.
Os que nos ouvem com regularidade devem recordar-se do que aqui foi dito sobre este mesmo tema no ano passado. As nossas sugestões sobre os caminhos a seguir na nossa opinião ficaram então bem claras. Recordemos algumas delas:
• Recurso ao folclore português nas suas múltiplas variedades e manifestações.
• A ligação íntima à realidade portuguesa nos seus mil e um aspectos e facetas.
• Recurso à poesia portuguesa popular ou erudita, medieval, clássica ou contemporânea.
• O aproveitamento das formas melódicas e rítmicas da música popular portuguesa, ainda não adulterada.
• A revisão total dos temas e respectiva forma de expressão com base na construção lírica dos poetas da literatura portuguesa, do “Cancioneiro Geral”, de Garcia de Resende, aos poetas da actual geração de Coimbra.
Sem preocupações de síntese, estas são algumas das formas possíveis, no nosso entender, de encarreirar a música popular portuguesa para alguma coisa de novo, de verdadeiro e de autêntico. Há anos que vimos proclamando isto. Nunca ninguém demonstrou ou procurou demonstrar que no plano dos princípios, e em concreto, estávamos errados. Posto isto, temos, para nós, que o trecho que vamos hoje apresentar, preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa com todas as implicações que a sua transmissão através de “Em Órbita” acarretam.

Leave a Reply