EM VEZ DE COMPRIMIDOS E INTERNAMENTOS, ARRANJEM-SE EMPREGOS… por clara castilho

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É intuitivo, há dados fornecidos por observatórios de saúde. Esta semana, o director do Programa Nacional da Promoção de Saúde Mental, Álvaro Carvalho, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, por ocasião do Encontro “Novas Perspectivas sobre efeitos da crise na saúde”, disse mesmo: “A solução para os efeitos da crise na saúde mental não está nos medicamentos nem em psicoterapias” mas sim “na criação de trabalho e no apoio social”.

Assim, considera que estes problemas são um “problema transversal”, pois só se resolvem com respostas “da segurança social, do mercado social de emprego ou de cursos de formação que respondam a áreas em que há défice a nível de mercado para reduzir o desemprego”.

suicidio

 

Ora bem, já na Dado que o acesso aos departamentos dos hospitais gerais e nos hospitais psiquiátricos não implica o pagamento de taxas moderadoras, o problema da não comparência dos doentes centra-se na falta de dinheiro para pagarem os transportes. Este é um factor que também sinto no meu trabalho, com crianças a faltarem por não haver possibilidade de os pagarem. Por outro lado, estes doentes sentem também muita dificuldade em pagarem os medicamentos que lhes são receitados. Falar de doentes mentais é também falar-se de suicídio.

 E se pensarmos na adolescência? Só no primeiro semestre deste ano chegaram às urgências do Hospital Pediátrico de Coimbra 33 adolescentes dos 13 aos 18 anos que se tentaram suicidar ingerindo medicamentos, segundo informações do director do serviço hospitalar, José Garrido. E o que está a acontecer é que, como no país só há 20 camas para crianças, os adolescentes são internados em hospitais de adultos. Isso pode representar uma experiência extremamente perturbadora.

 A declaração “Health in All Policies” do Conselho da União Europeia, de 2007, se reconhecia que o estado de saúde de uma população é largamente determinado por fatbores externos ao sector da saúde e que as falhas na protecção e promoção da saúde da população têm severas consequências económicas. O corolário consequente será que investir na saúde é investir no desenvolvimento dos países. Também a Organização Mundial de Saúde, em 2011, lembrou a necessidade de se investir, entre outros, na redução das iniquidades em saúde e na promoção da participação dos cidadãos nas decisões políticas em saúde.

Alô, estamos noutro mundo?

Voltemos ao Observatório dos Sistemas de Saúde de que já aqui falámos. Os seus técnicos tentaram ver a repercussão da crise na saúde mental das pessoas, como o resultado da convergência, por um lado, do aumento dos níveis de stress e ansiedade (resultantes de factores como o desemprego, a insegurança e a incerteza, da diminuição de rendimentos disponíveis e consequente alteração de padrões de alimentação) e por outro, da alteração das políticas de saúde que pudessem reduzir a capacidade de resposta dos serviços de saúde, o aumento da comparticipação financeira dos utentes, entre outros.

 Como o fazer se não são conhecidos estudos que avaliem este problema? Assim, estudando um “mini” universo, verificou-se um acréscimo de 35% para os homens e 47% para as mulheres relativamente aos registos de tentativas de suicídio e no mesmo período (in Barbosa, 2013).

Em 2011, Portugal encontrava-se entre os países em que o risco de pobreza e exclusão social das crianças e idosos ultrapassava a média da UE. E, por outro lado, era o país com a maior prevalência de doenças mentais, onde cerca de um em cada quatro portugueses sofria de uma doença psiquiátrica (23%), com 16,5% com perturbações de ansiedade, 7,9% com perturbações depressivas e quase metade (43%) que já teve uma destas perturbações ao longo da vida (in Almeida, 2010). A agravar, apenas 1,7% da população com problemas de saúde mental tem acesso aos serviços públicos especializados e o internamento continua a consumir a maioria dos recursos (83%), quando não deve ultrapassar 50% em países desenvolvidos (OPSS, 2009; Almeida, 2010). Outros resultados deste mesmo estudo mostram que 33,6% dos doentes com perturbações graves não tiveram qualquer tratamento e, dos que foram acompanhados, 38,9% foram assistidos em serviços especializados em saúde mental, enquanto 47,1% foram acompanhados em consultas de medicina geral e familiar.

A Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (Outubro 2012) levou a cabo um estudo que pretendia estudar o que pensam os portugueses sobre a depressão. Os resultados indicaram que 24% dos portugueses admitiu já ter sofrido uma depressão e destes, 83% fez tratamento; 65% disse ter conhecimento de um caso de uma pessoa próxima que tenha sofrido a doença; 96% considerou que a crise aumentou os casos de depressão em Portugal. Os problemas familiares e financeiros foram considerados como as principais causas de depressão.

Portugal apresentava, em 2010, uma taxa de suicídio de 8,2, abaixo do valor apresentado pela OCDE de 12,3 (OCDE, 2012). No entanto salienta-se que entre 1995-2010 esta taxa de suicídio apresentou um crescimento de 9%. A considerar ainda que, entre nós, o elevado número de mortes por causas indeterminadas e a escassez de autópsias, em particular de autópsias psicológicas, poderão ser responsáveis por uma subnotificação destes casos.

Assim, o Observatório considera que se está perante um sério problema de saúde pública que necessitaria precisamente de ser combatido essencialmente através da prevenção.

De acordo com dados da OCDE (2012), Portugal apresenta um consumo de antidepressivos de 79 DDD (defined daily dose) por 1000 habitantes/ano, muito acima do valor médio dos países da OCDE.

E não vamos aqui ligar aos problemas de aumento de consumo de álcool ou de drogas…

Existem planos nacionais  Plano Nacional de Saúde (2012-2016), o Plano Nacional de Saúde Mental (PNSM, 2007-2016) que vêm os seus objectivos de acção dificultados pela falta de meio financeiros. Para além disso, a distribuição do orçamento da saúde em função dos diversos tipos de serviços continua a discriminar negativamente os cuidados de saúde mental.

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