
Logo a seguir ao 25 de Abril larguei o meu emprego e integrei-me num bando de malucos que eram dos mais ajuizados em toda a Esquerda. O caso era que muitos industriais tinham fugido para Espanha e para o Brasil. Achámos que já era tempo de ajudar os trabalhadores a converter as fábricas abandonadas em cooperativas de produção.
Fomos muito censurados, disseram-nos que primeiro toma-se o Estado e só depois, com as nacionalizações, é que se altera a estrutura económica.
Não acreditámos na mediação dos aspirantes a funcionários públicos. Rimos das greves de protesto contra a ausência dos patrões. Recusámos a orfandade e arregaçámos as mangas. Achávamos que a mudança teria de ser de baixo para cima, ou então não era.
Também fomos contra salários iguais para toda a gente, afirmámos que essa era a variante indolente de salário igual para trabalho igual. Não estávamos dispostos a andar ao sol, a segurar na rabiça do arado, enquanto outros ficavam à sombra dos plenários, a beber da água fresca, ou do vinho branco, ou do tinto, ou das cervejas, qualquer coisa que servisse para festejar a Igualdade. Se queriam ter a Liberdade de passar os dias e as semanas e os meses a lançar foguetes e a recolher depois as canas, pois que isso fosse por conta deles, não por nossa…
Antes de tudo haver para todos, agir como se tudo já houvesse, é porque entretanto alguém pagaria a conta. Queimar etapas é promover o duelo fratricida entre a Igualdade e a Liberdade… Tanto bastou para que na Esquerda um senhorito afirmasse já estarmos infiltrados pela CIA e nos movesse luta mais acirrada do que a Direita. A qual, ao tempo, andava muito envergonhada.
A Liberdade e a Igualdade, moenga antiga, caminho armadilhado.
