
– O instinto diz-nos que tudo podemos. O juízo diz-nos que nem tudo devemos.
– E o instinto consente nisso?
– Que remédio… Mas vinga-se, vinga-se… Por muito prezar a condição humana, quem em si queira abafar, até ao fim, o animal que permanece, também homem não será, secura d’alma é desumana condição.
– Afinal és tu que estás a falar como o Camões…
– Estou? Nem tinha reparado… Mas estás a entender o que te digo?
– Faço os possíveis.
– O juízo contra o instinto, é guerra que já dura há milénios… Quem vence, caras ou cunhos? Afinal eles são as duas faces de uma mesma condição, a humana. Quem recusa o seu contrário, a si mesmo se recusa. Sabedoria será entender e em si-mesmo aceitar a luta dos seus contrários. Será impedir que um supere o outro, até que um no outro se converta, o juízo a ser instinto, o instinto a ser juízo.
– É muito bonito o que dizes, voltaste a falar como o Camões. Mas a respeito da D. Amélia, o que eu não percebo é como…
– Sobre esse assunto só digo mais uma coisa. A minha vontade era chegar perto dela e dizer-lhe: estou a caminho dos setenta anos, vou passar à reforma o meu Zé Maria Pincel; a D. Amélia não quer fazer-lhe uma festa de despedida? Mas fico só na vontade, agir não posso, não devo. Este, para nós, é que é o sal da vida, o fel e o mel.
