Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 153

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Pontevedra

“Per esta porta entravan os que vindo de Portugal ian a Santiago”. Por já não haver porta, gravaram a frase no chão; mas continuamos a passar. Paro para visitar a igreja da Virgem Peregrina, cuja planta – do século XVIII – tem a forma de vieira. Paro aqui e além para ler a cidade, “o estudantado em loita, liga estudantil galega”, “come e bebe con pan de xeve”, “por um proceso constituínte de cara á III República”… Paro para ver igrejas, praças, arcadas, brasões, marquises rendilhadas… Uma fonte. Outra fonte. Paro para ver os passantes, um rapaz, um idoso, uma estudante, um professor, uma dona de casa, vidas que lamento não conhecer para além da etiqueta que lhes prendi na gola. O senhor com uma bengala de outros tempos contaria cinco ou seis anos durante a Guerra Civil… Que memórias guardou? Qual foi a sua profissão? Terá netos? De boa vontade eu faria um parêntese na peregrinação para o ouvir…

Atravesso o rio Lérez pela Ponte do Burgo, avisto ao longe o blusão de Pieter; já caminhei dois quilómetros. Passo por bonitas casas de granito, com grandes quintais, com vinha, com hortas… Vejo galinhas à solta num jardim – pretas, brancas, ruivas. (Muito bonitas.) Alcanço a reserva natural de Alba, um paul (oitenta hectares) que o Caminho não atravessa, embora um passadiço permita olhar na direção da zona húmida. Poiso a mochila, dispo a camisola. Quando aqui parei em 2012 uma rapariga mostrou-me o telemóvel: indicava a temperatura de um grau. Não obstante trazer luvas, doíam-me as mãos com frio… Hoje haverá uns dez graus excelentes para caminhar. Pieter ultrapassa-me. Bom caminho!

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Leio “Augas fecales ao rio” no cimento de um viaduto. Passo pela igreja de São Caetano, pelo cruzeiro do Santiago peregrino, por uma palmeira em cujo tronco crescem plantas suculentas… Extraordinário! Atravesso a estrada e subo à direita. Por o lugar onde agora caminho ser mais alto, reparo que as finlandesas prosseguem sem virar. Chamo, faço sinais com o bordão – que é vermelho. Não ouvem. Não veem. Estes incidentes ocorrem sobretudo quando estamos cansados… E mais nos cansam.

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