
Maria da Conceição
Conheço a Conceição, a da música* .
Vão para aí uns quarenta anos que a vejo passar, entrar e sair da loja, e eu fico-me parado, a olhar. Ela ali, eu aqui, do outro lado do balcão, com a fita ou o metro na mão. Às vezes escorregam-me os óculos, às vezes cai-me a tesoura para o chão, ou desenrola-se a fita de cetim e tenho que ir atrás dela.
O tempo passou por ela, é certo, mas quando olho para a sua bela figura ( ainda tão bela figura) , acho que ainda vejo o que via. E quando penso nela, continuo a pensar quão suave deve ser a sua pele, a sua penugem macia. E tenho a certeza que , se soltasse o cabelo, e eu pudesse passar os dedos pelas ondas dos seus caracóis, não haveria um nó, um novelo, e a mão deslizaria trazendo o perfume do johnsons amarelo.
Não, sei, mas é como se soubesse. Nunca lhe toquei a pele, nem a penugem nem o cabelo. Nem a mão, quando lhe estendo os botões forrados, embrulhados em papel de seda.
Olho, e suspiro.
Ela ali, eu aqui, sozinhos. Ela a costurar em casa, para as clientes de sempre, eu a vender na retrosaria, aos clientes de sempre. E a ela.
“ Bom, dia, Sr. Augusto, eram 2 metros de tafetá azul escuro”
“Bom dia, Sr. Augusto, precisava de um torsal preto”
E eu, a babar, a ouvir e a saborear o som da voz dela, o” Sr. Augusto”, e a imaginar se fosse só “Augusto”, ou melhor, ainda “ o meu marido Augusto”.
“Podia, repetir, menina Conceição?” , é raro o dia que não tenho de lhe dizer isto! Às tantas nem me diz nada, por achar que sou mouco…mas a verdade é que grande parte das vezes já só oiço o meu nome! E se é verão e ela vem sem casaco, acho que nem isso ouço.
E todos esses dias penso que é hoje que lhe digo o que sinto. Ou que a convido para ir beber um chá à pastelaria aqui ao lado. Ou, simplesmente um bom dia, menina Conceição, como tem passado. Mas nada me sai. Só o coração do seu saco, e os bofes pela boca. E outras partes que parecem ganhar vida. E depois, nada acontece. Eu atendo-a, ela despede-se e vai embora, e eu na dúvida se ela voltará cá amanhã ou não.
Até porque tem o marido em casa, e os netos, e não sei se aceitará.
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* Inspirada na música de Rui Veloso, com letra de Carlos Tê , “ Conceição”, do álbum “Mingos e Samurais” de 1990
