NO NATAL, EMPANTURREMOS OS PERUS MAS NÃO AS CRIANÇAS por clara castilho

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[…] João Sousa Monteiro- E então o David Cooper compara esta compulsão alimentar, para empanturrar os miúdos (com a ansiedade dos adultos), com a mesma atitude, mas agora ao nível de estar sozinho: mais um presente, e mais uma coisa e outra, mas deixar os miúdos em paz é que não pode ser. É o que se fazia dantes nos perus, antes do Natal, enfiava-se-lhes azeite pela boca abaixo, ou lá o que era, para eles ficarem mais gordos.. e empanturravam-se por sua vez com os perus …(risos)

[…] João Sousa Monteiro – Tenho a impressão de que a cabeça das crianças, muitas vezes, fica como o fígado dos gansos, degenerado e gordo (risos) por não se lhes dar a liberdade, eo o tempo, todo o empo necessário para que elas se ponham livremente a si próprias, e vão procurando resolver, lentamente, todos estes problemas, tão difíceis de resolver, e tão importantes para toda a gente. […]

In EU AGORA QUERO-ME IR EMBORA – – João dos Santos, conversas com João Sousa Monteiro, Assírio e Alvim (1990)

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Foi este o texto que levou alguns técnicos de saúde mental a reflectir sobre as suas infâncias, sobre as de hoje e a passarem pelo trabalho, que também pode ser terapêutico de construírem um texto e o representarem. Identificam-se no facebook como “se não sabe porque é que pergunta?”

Para isso contaram com a ajuda do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos e da Associação Cultural sem fins lucrativos SOU, cuja actividade se centra na formação, criação e programação artística.

E assim nos trouxeram, dia 18, na Escola Superior de Educação, numa noite gelada lá fora, mas quente no auditório, pelo afecto, pela comunicação e pela criatividade, as memórias das suas infâncias, vistas á luz dos ensinamentos de João dos Santos.

Com acção, movimento, o texto espelha a vida permitindo experimentar diferentes formas de viver, de ser. Da estética escolhida, com cenário fácil de colocar em qualquer lugar, apelam à compreensão e à participação. Os actores quiseram descobrir-se, encontrando o que de comum encontraram, partilhando na cumplicidade que tentaram passar aos espectadores.

Confundiram-se o tempo da Criança, o tempo do Adulto, o tempo do Encontro. Para que não se empanturrem as crianças como se empanturram os perus. No Natal e em todo o ano.

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