EDITORIAL – A CONTRADIÇÃO, O CONSENSO E O BOM SENSO

Imagem2

  Ouve-se frequentemente dizer que em democracia se tem de procurar os consensos. Isso nem sempre é possível. Na prática; quando alguém chega ao poder com um projecto político aprovado pelo povo, mesmo que deseje contemporizar com alguns aspectos dos projectos adversários, partindo da convicção de que assim conseguiria algum apaziguamento e abrandamento, vantajosos até para conseguir condições para a execução de aspectos fundamentais do seu, arrisca-se a pôr este em causa e a acabar refém dos derrotados, perdendo mesmo a confiança dos seus apoiantes. Há razões para supor que tem sido o caso de François Hollande. Obama está lá perto, com a ressalva de que, tendo conseguido retirar os Estados Unidos do envolvimento no Iraque e parecer estar à beira de conseguir o mesmo no Afeganistão, terá conseguido obter algum crédito junto dos muitos norte-americanos que ansiavam por essas retiradas.

 Em Portugal parece muito profundamente enraizada a convicção de que os políticos sistematicamente não cumprem as suas promessas, a começar pelas promessas eleitorais. Esta convicção, é forçoso reconhecê-lo, tem sido confirmada frequentemente. Apesar disso os portugueses têm votado regularmente nas mesmas pessoas, com poucas variações. Talvez por isso as contradições têm consequências ainda maiores que noutro lado. E a procura de consensos, embora muitas vezes invocada, está cada vez mais ameaçada. Os consensos só podem surgir quando as pessoas conhecem minimamente os interesses e o pensamento de uns e outros. O não cumprimento sistematicamente das promessas torna isso extremamente difícil. As dificuldades em Portugal, na vida política, e mesmo na vida em geral, assentam aí, em grande parte. Aqui, tal como na Irlanda, a austeridade é justificada em grande parte pelos problemas dos bancos, que têm guardado o nosso dinheiro, parece que nem sempre da melhor maneira. A insegurança dificulta o consenso, e abre caminho às imposições. Daí se falar em perigos para a democracia, por um lado, e aparecerem queixas contra a Constituição por outro. Sobre estas queixas, recorde-se que há muito que Alberto João Jardim fala na necessidade da uma nova constituição.

 Claro que a primeira condição para se poder ultrapassar uma contradição é enunciá-la em termos exactos e claros, Em Portugal a contradição real e profunda é entre ricos e pobres. Aliás, a liquidação a que temos assistido da classe média, deixa os seus termos bem claros. A grande dificuldade é como se pode pôr cobro a essa diferença, não deixando agravar o fosso e indo mais longe. Estabelecendo um consenso de que  o fosso tem de desaparecer. O bom senso indica que esse fosso já dura há demasiado tempo, e que bem seria melhor que não existisse.

Leave a Reply