A ANÁLISE AMERICANA DA ECONOMIA A NÍVEL MUNDIAL (EXCERTOS) (1) – UMA SÍNTESE por JÚLIO MARQUES MOTA

A Análise Americana da Economia a nível mundial ( Excertos) [1]

PARTE VIII

Análise individual das diversas economias

 Ásia

(continuação)

Japão

O mercado cambial para o iene é um dos maiores e mais líquidos do mundo, representando cerca de 23 por cento da aproximadamente US $5 milhões de milhões em transacções cambiais diárias a nível global, de acordo com os dados fornecidos pelo Banco de Pagamentos Internacionais (BPI) [1]. O Japão mantém um regime de taxa de câmbio flutuante.

O Japão não interveio nos mercados cambiais em quase dois anos, embora as autoridades tenham emitido várias declarações públicas sobre o seu desejo de corrigirem o valor do iene, considerado pelo Japão como sendo excessivamente alto, declarações estas feitas nas semanas seguintes a eleição do primeiro-ministro Abe, em 16 de Dezembro de 2012. Pouco tempo depois, o governo japonês juntou-se à declaração do G-7 de Fevereiro de 2013, afirmando que as políticas económicas devem estar baseadas em objectivos nacionais e devem-se  utilizar  instrumentos internos e não tomando como instrumento a manipulação da taxa de câmbio. Desde então, as autoridades japonesas claramente descartaram as compras de activos estrangeiros como um instrumento de política monetária e abstiveram-se, em grande parte, de fazer comentários públicos sobre o nível desejado de taxa de câmbio. O Japão também fazia parte do subsequente consenso do G-20 e da posição assumida na reunião de Governadores do Banco Central e com os ministros das finanças, em Fevereiro de 2013 em Moscou, em que se dizia que os países não deveriam querer utilizar as taxas de câmbio para melhorarem a sua posição em termos de competitividade. Este compromisso foi afirmado pelos dirigentes do G-20 em Setembro de 2013 na Cimeira de  St. Petersburg , em que se considerou importante que estas posições sejam mantidas pelos países do G-7 e do G-20.

O iene começou a desvalorizar face ao dólar, em Outubro de 2012, com  as expectativas do mercado a serem construídas face a uma agressiva politica de flexibilização monetária mais agressiva conduzida pelo Banco do Japão. Depois, a 4 de Abril de 2013, deu-se o anúncio de Quantitative and Qualitative Easing em que o Banco do Japão se comprometera a dobrar a base monetária para alcançar um objectivo de inflação de 2%, e em que o iene se depreciou fortemente descendo para ¥ / $ 103,2 em 17 de Maio. Isto representou uma depreciação de 32 por cento desde o início de Outubro de 2012. O iene tem-se negociado desde então no intervalo de 96 – a 100 ienes por dólar. Numa base de taxa de câmbio ponderada, o iene tinha-se depreciado em 22,4 por cento desde o início de Outubro de 2012 até Setembro de 2013.

No seu mais recente Relatório de Consulta ao abrigo do artigo IV para o Japão (Agosto de 2013), o FMI analisou a taxa de câmbio efectiva real do iene como estando moderadamente subavaliada, embora salientando a grande incerteza sobre a sua avaliação,  dada as principais alterações ao quadro económico do Japão. Desde Setembro de 2012, as reservas cambiais do Japão aumentaram US $8,2 mil milhões. Em Setembro de 2013, as reservas eram de US $1,2 milhões de milhões, o segundo maior volume de reservas cambiais no mundo.

A gradual mas persistente deflação tem afectado fortemente o Japão nos últimos 15 anos. A partir de Agosto de 2013, o principal índice de preços ao consumidor (com exclusão de alimentação e energia) mantém-se praticamente constante, mas os preços ao consumidor terão variado até cerca de 0,8 por cento, variação esta impulsionada pelo aumento dos custos em energia devido à depreciação do iene.

A economia japonesa continua a recuperar do terremoto e do tsunami de Março de 2011 e foi apoiada pela política económica a curto prazo do primeiro-ministro Abe, conduzida sobre três planos, em que se combinou  o estímulo monetário, uma sequência de política orçamental expansionista seguida, depois,  por uma larga consolidação e por reformas estruturais já anteriormente previstas. As projecções do FMI falam de um crescimento do PIB na ordem dos 2,0% em 2013, baixando depois para 1,2 por cento em 2014 com a consolidação fiscal a entrar em acção. O crescimento japonês no segundo trimestre e em termos anualizados foi de 3,8 por cento, com a procura interna final a contribuir em cerca de 3,8 pontos percentuais, graças ao forte consumo privado e à despesa pública para a reconstrução do tsunami e aos estímulos fiscais que terá contribuído com uma percentagem 0,7 ponto percentual neutralizado este valor pela redução das existências igualmente de 0,7 ponto e da contribuição das exportações líquidas em 0,7 ponto. No primeiro semestre de 2013, as exportações líquidas contribuíram 1,2 pontos percentuais para o crescimento e a procura interna contribuiu com 2,6 pontos percentuais.

Em 2011, a balança comercial do Japão caiu numa situação de défice pela primeira vez desde 1980 com as exportações a abrandarem e a acompanharem os disfuncionamentos na evolução da produção decorrentes do desastre de Março de 2011, enquanto as importações aumentaram devido ao aumento dos preços das commodities e à crescente procura em materiais de reconstrução devido á reconstrução. O défice nominal na balança comercial do Japão continuou a subir em 2012 e 2013, devido em grande parte  ao aumento dos preços de bens importados expressos em ienes e devido à baixa do valor externo desta moeda assim como  ao aumento da procura de importações de combustíveis fósseis, aumento este devido a paragem programada e em curso da maioria dos geradores de energia nuclear do Japão. O défice comercial em termos nominais atingiu os 2,2% do PIB no primeiro semestre de 2013. No entanto, como os termos de troca do Japão se deterioraram com o iene mais fraco, a evolução do saldo comercial nominal e real do Japão foi divergente, com o saldo em termos reais a melhorar como resultado de volumes crescentes de exportação, enquanto o défice nominal cresceu, pelas razões apontadas. Durante os primeiros e segundo trimestres de 2013, as exportações, em termos reais, cresceram de 1,5 e 3,6 por cento, respectivamente, numa base trimestral.

A balança corrente permanece com excedente devido aos fluxos de rendimentos líquidos positivos, embora estes fluxos se tenham contraído substancialmente em volume do PIB, caindo  de quase 4% em 2010 para 1,2 por cento no primeiro semestre de 2013. O excedente comercial bilateral do Japão com os Estados Unidos totalizou US $43,2 mil milhões durante os sete meses que terminaram em Julho de 2013, levemente inferiores aos US $45,9 mil milhões durante o mesmo período em 2012.

Olhando para o futuro, é criticamente importante para a economia global que as políticas económicas do Japão (―Abenomics) trabalhem principalmente através do aumento da procura interna. Em particular, a mudança planeada para uma consolidação orçamental em 2014, precisa de ser cuidadosamente calibrada a fim de preservar o dinamismo subjacente do crescimento da procura interna. Apoiar e sustentar o crescimento da procura interna vai depender de um aumento do investimento das empresas, de investimento imobiliário e especialmente do crescimento dos salários nominais. Em dados revistos do Japão para o segundo trimestre de PIB, o investimento empresarial aumentou pela primeira vez em seis trimestres de 5,1% numa base de ajustamento sazonal. No entanto, os rendimentos monetários recebidos, rendimentos  regulares, um indicador chave da tendência subjacente em termos de rendimentos, continuaram a descer ao longo de Julho, embora os pagamentos de bónus e o pagamento de horas extras já começaram a aumentar.

As autoridades japonesas afirmaram o seu empenho em repor as finanças públicas do Japão numa trajectória sustentável. O estímulo fiscal de Abe, centrado na reconstrução e nos gastos de resposta à destruição criada pelas catástrofes, manteria o défice em cerca de 10 por cento do PIB em 2013, e inalterado portanto a partir de 2012. Em Agosto, o FMI prevê que a dívida bruta da Administração pública no Japão chegará aos 247% do PIB – o maior ratio entre as economias desenvolvidas – em 2013. Como resultado, a consolidação orçamental de médio prazo continua a ser uma prioridade-chave para as autoridades japonesas. No entanto, o Japão também precisa de acautelar que a sua estratégia de redução do défice não resulte numa muito rápida consolidação que bloqueie o crescimento japonês e precisa de evitar que se caia na deflação. Se o Japão prossegue a sua programação com o aumento aprovado de 3 ponto percentuais do imposto de consumo, é importante que o seu impacto negativo a curto prazo venha a ser moderado através de medidas fiscais temporárias em que o multiplicador orçamental seja alto para apoiar a procura.

Em Março de 2013, o primeiro-ministro Abe anunciou a intenção do Japão em participar nas negociações comerciais Trans-Pacific Partnership (TPP), e o Japão juntou-se as negociações em Julho de 2013. O anúncio tem sido interpretado como lançamento o terceiro vector da estratégia da reforma económica de Abe, na medida em que juntando-se ao TPP iria levar a reformas internas, tais como a desregulamentação em áreas como a agricultura e os serviços médicos. Além disso, a administração Abe começou a revelar uma estratégia de crescimento, centrada na competitividade industrial, na reforma da regulação existente e na política sobre ciência e tecnologia. Uma estrutura de tópicos para a sua implementação foi apresentada por Abe em Junho com empenhada  promessa de uma futura apresentação mais profunda e especificamente com apresentação de mais detalhadas reformas para apresentar depois das eleições para a Câmara Alta no Japão, em Julho.

Vamos continuar a acompanhar atentamente as políticas aplicadas no Japão e a extensão com que estas apoiam o crescimento da procura interna. De modo a apoiar uma recuperação económica mais forte e aumentar o potencial de crescimento é importante que o Japão calibre o ritmo de consolidação orçamental para poder levar a cabo a recuperação da procura interna e assumir medidas eficazes e ambiciosas para aumentar a procura interna, incluindo a atenuação de regulações que têm estado a dissuadir indevidamente a concorrência e a participação da força de trabalho na economia interna do Japão. A política monetária não pode compensar a excessiva consolidação orçamental ou ser um substituto para a reforma estrutural que tenda a aumentar a taxa de crescimento e a procura interna. Nós vamos continuar a insistir na importância da continuação da adesão do Japão aos compromissos assumidos no G-7 e G-20, para manter-se orientado no sentido da realização de objectivos nacionais respectivos utilizando  instrumentos  internos nas suas políticas  e abstendo-se de desvalorização competitiva e do direccionamento da sua taxa de câmbio com a finalidade de melhorar a sua competitividade.

(continua)

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[1] O relatório trienal do Banco Internacional de Pagamentos de 2013 publicado em Setembro  mostrou que se tinha verificado uma expansão significativa nas transacções em ienes entre Outubro de 2012 e Abril de 2013 de Abril, motivada sobretudo pela expectativa de uma mudança de regime na política monetária japonesa. Na último relatório trienal desta instituição bancária sobre câmbios,   Survey of Foreign Exchange Turnover, o mercado de câmbio em ienes representava 19 por cento de  cerca de  US $4 milhões de milhões em transacções diárias no mercado cambial global.

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[1] Excertos de:  Report to Congress on International Economic and Exchange Rate Policies; U.S. Department of the Treasury, Office of International Affairs, October 30, 2013

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Para ler a Parte VII desta síntese de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/23/a-analise-americana-da-economia-a-nivel-mundial-excertos-1-uma-sintese-por-julio-marques-mota-7/

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