A Análise Americana da Economia a nível mundial ( Excertos) [1]
PARTE IX
Análise individual das diversas economias
(continuação)
Europa
Zona Euro
A taxa de câmbio do euro é determinada livremente no mercado cambial. O euro passou por grandes variações desde a crise financeira resultante dos altos e baixos na aversão ao risco associados com as tensões financeiras na zona euro. No primeiro semestre de 2013, o euro desvalorizou-se 1.3 por cento contra o dólar, mas posteriormente apreciado por 4,4% até ao final de Setembro. Em termos de taxa de câmbio efectiva, o euro apreciou em 2,7 por cento no primeiro semestre de 2013 e em mais 0,6 por cento no terceiro trimestre de 2013.
A economia da zona euro aumentou de 1,2 por cento, numa base de ajustamento sazonal anualizada (dito saar), no segundo trimestre de 2013, assinalando a primeira expansão da actividade económica na área do euro em sete trimestres consecutivos. Esta expansão foi apoiada pelo crescimento da procura interna na Alemanha – embora o crescimento na Alemanha ainda continua a estar assente nas suas exportações líquidas positivas o que, por seu lado, continua a atrasar o processo de ajustamento externo da zona euro – e na procura interna na França.
As condições económicas na zona euro permanecem diferenciadas com os países da periferia a permanecerem numa recessão global. A Irlanda e Portugal cresceram numa base anual corrigida das variações sazonais no segundo trimestre de 2013, mas isto pode ter sido o resultado de factores transitórios como o tempo, e as economias da Grécia, de Itália e de Espanha continuaram a contrair-se durante o mesmo período, embora a um ritmo mais moderado.
A retoma na zona euro tem estado substancialmente desfasada da retoma de outros países desenvolvidos, mantendo-se a actividade económica a um nível baixo. O PIB na zona euro ainda permanece cerca de 3 por cento abaixo do seu valor de pico no primeiro trimestre de 2008, em que que a procura privada está quase 6 por cento abaixo dos níveis pré-crise, enquanto o desemprego está a atingir os 12,0% e a periferia permanece afundada numa recessão global. Embora os dirigentes da zona euro tenham posto em prática importantes medidas para estabilizar a economia, esta zona continua a estar sobre pressão significativa dos ventos [desfavoráveis] da macroeconomia e dos mercados financeiros. O impulso orçamental em 2013, embora mais moderado do que em 2012, continua a ser negativo. O consumo privado, de longe o maior componente da procura interna, poderá continuar a ser restringido assim como o rendimento disponível real das famílias permanece sob pressão dado o elevado nível de desemprego, o baixo crescimento dos salários reais e os impostos mais elevados. Enquanto isso, o investimento, que deu uma contribuição significativa para a fraca procura interna, começou a dar pequenos sinais de recuperação mas, no geral, permanece fraco. Mais ainda, enquanto a fragmentação financeira diminuiu devido às acções do BCE sobre os mercados da dívida pública, as condições de empréstimos permanecem apertadas em muitos países e, juntamente com a desalavancagem, tudo actuará como travão ao crescimento. As previsões da Comissão Europeia (CE) e do FMI são de que a economia da zona euro contractar-se-á em 2013 em 0,4 por cento, esperando-se que o PIB venha a crescer ao ritmo lento de 1 por cento em 2014.
Os países deficitários da zona euro reduziram drasticamente os seus défices na balança corrente mas os países excedentários desta mesma zona não reduziram os seus excedentes das suas balanças correntes. A balança corrente global da zona euro entrou em situação excedentária em 2012, e o excedente aumentou ainda mais no primeiro semestre de 2013 e para quase 2,3% do PIB. Os Países Baixos e a Alemanha continuaram a ter cada um deles um substancial excedente na sua balança corrente desde 2011, enquanto os défices nas balanças correntes de Itália e Espanha e das economias mais pequenas na periferia se contraíram significativamente, mas principalmente mais como um resultado de uma forte queda na sua respectiva procura interna e dos salários. A Irlanda, a Itália e a Espanha têm estado a ter excedentes nos últimos trimestres, e Portugal mudou-se de país deficitário para excedentário no segundo trimestre de 2013. A balança corrente excedentária da Alemanha, entretanto, subiu acima dos 7% do PIB no primeiro semestre de 2013, com as exportações líquidas, ainda a representarem uma parcela significativa (um terço) do crescimento total no segundo trimestre, sugerindo que o reequilíbrio não está ainda a ocorrer no mercado interno alemão. Para facilitar o processo de ajustamento dentro da zona euro, os países com grandes e persistentes excedentes precisam de tomar medidas para impulsionar o crescimento da sua procura interna e de reduzir os seus excedentes comerciais.
A Alemanha tem mantido um grande excedente na balança corrente durante toda a crise financeira na zona euro, e em 2012, o excedente nominal de balança corrente da Alemanha foi maior do que o excedente comercial da China. O ritmo anémico de crescimento da procura interna na Alemanha e a sua dependência das exportações têm dificultado o reequilíbrio da zona numa altura em que muitos outros países da zona euro têm estado sob forte pressão para reduzir a sua procura e para comprimir as importações, a fim de promover o ajustamento necessário. O resultado tem sido um enviesamento deflacionista tanto na zona euro bem como na economia mundial. Um mais forte crescimento da procura interna nos países europeus em situação de excedente nas suas balanças correntes, particularmente na Alemanha, ajudaria a facilitar um reequilíbrio durável dos desequilíbrios na zona euro. O Procedimento relativo aos Desequilíbrios Macroeconómicos (PDM) da União Europeia desenvolvido como fazendo parte da monitorização, deveria ajudar a sinalizar o aparecimento dos desequilíbrios externos e internos; contudo, este procedimento permanece um pouco assimétrico e não dá suficiente atenção aos países com grandes e persistentes excedentes externos tais como a Alemanha.
Em 2012, a zona euro, no seu conjunto, empenhou-se numa consolidação fiscal das mais agressivas nas economias avançadas apesar de ter o menor défice orçamental ajustado em termos de ciclo e de estar perante perspectivas de crescimento muito fraco. Embora o ritmo de consolidação se tenha moderado um pouco este ano, o défice orçamental estrutural da zona euro deverá diminuir de novo de 0,9% do PIB em 2013. No âmbito do procedimento relativo aos défices excessivos, a maioria das principais economias da zona euro tinham-se inicialmente comprometido a reduzir os défices orçamentais para menos de 3,0% do PIB até 2013. A Comissão Europeia, no entanto, adoptou alguma flexibilidade forcando a aplicação de metas por país, centrando-se sobre o esforço estrutural de um país mesmo se as metas anuais publicitadas não são satisfeitas, devido ao crescimento ser mais fraco do que o esperado. A Alemanha satisfez o objectivo dos 3 por cento em 2011 e alcançou um ligeiro excedente em 2012. Á Irlanda, à Grécia e a Portugal foi-lhes dado mais tempo na base da aplicação dos seus programas de reformas, e recentemente, à Espanha e à França foram dados mais dois anos ( a Espanha até 2016, e à França até 2015) e aos Países Baixos um ano mais para alcançarem o objectivo dos 3 por cento que é o objectivo da Comissão Europeia. No entanto, continuamos preocupados quanto ao ritmo adequado de consolidação e quanto à necessidade de ganhar espaço para aplicar medidas de política económica anti- cíclicas e simultaneamente assegurando trajectórias credíveis em termos de sustentabilidade orçamental ao longo de um período de tempo que seja sensível aos desenvolvimentos cíclicos.
Em 2013, o Banco Central Europeu (BCE), em termos de políticas utilizadas, continuou a aplicar os dois tipos de acções, as acções convencionais e as não convencionais no seu apoio à actividade económica e para melhorar a transmissão da política monetária. O BCE aliviou a política monetária, reduzindo a sua principal taxa de refinanciamento em 25 pontos base para 0,5 por cento em Maio de 2013. O BCE também teve em conta as suas perspectivas a prazo em Julho de 2013 para tornar mais claro qual o caminho esperado com essa política, fazendo notar que a taxa de juro do BCE permaneceria em ou abaixo dos níveis atuais por um período prolongado de tempo. O BCE continua a fornecer às instituições financeiras da zona euro enormes quantidades de liquidez contra activos de garantia elegíveis nesta mesma zona. O anúncio de transacções monetárias definitivas (OMT), desenvolvidas pelo BCE em Setembro de 2012 reduziu drasticamente a pressão financeira e reduziu os custos de financiamento dentro da moeda area.[1]
A provisão do BCE em mais de um milhão de milhões de financiamento ao longo de três anos através de operações de refinanciamento de prazo alargado (LTRO) em Dezembro de 2011 e em Fevereiro de 2012 ajudou a aliviar as pressões sobre o financiamento sobre o sector bancário ao longo de 2012. O reembolso pelas instituições financeiras sobre um pouco mais de um terço do prazo de três anos, no entanto, resultou na redução do excesso de liquidez, o que pode colocar uma pressão à alta sobre as taxas de juros.
Globalmente, quer as recentes decisões de política económica quer os recentes compromissos assumidos pelos governos da zona euro e pelo BCE têm reduzido as preocupações sobre eventuais situações de ordem sistémica na zona euro e reduziram-se as graves pressões dos mercados, permitindo ganhar tempo adicional para a realização dos difíceis e longos ajustamentos, por vários anos, quer a nível de cada país quer a nível regional. Mas os riscos de contratempos políticos ao abordar as vulnerabilidades subjacentes às economias periféricas e à estrutura institucional da zona euro e da União Europeia continuam a ser significativos. Outros esforços poderão emergir como resultado da incerteza política, da fadiga do ajustamento e do desacordo dentro da zona euro sobre a forma e os meios para enfrentar os novos desafios para a União Monetária. A médio prazo, os atrasos na integração, financeira, económica e orçamental, podem cristalizar as grandes disparidades económicas que se desenvolveram ao longo e no interior da zona euro, deixando a região vulnerável a novos choques. Uma prioridade fundamental para a zona euro é a de solidificar e acelerar a recuperação do crescimento, no qual irá então assentar a redução dos encargos da pesada dívida, assim como a redução das elevadas taxas de desemprego e ainda ajudar a manter o apoio político para o processo de ajustamento entre os países excedentários e os países ditos periféricos. A Comissão Europeia estima uma contracção de 0,4 por cento do PIB em toda a área do euro para 2013 e ventos contrários ao crescimento que incluem entraves orçamentais substanciais, a desalavancagem do sector privado e um ambiente externo fraco. A periferia enfrenta uma maior incerteza sobre a tendência do crescimento de médio prazo, dado o contínuo processo de consolidação orçamental, a desalavancagem do sector bancário e a mistura de esforços que se têm desenvolvido até à data para enfrentar os desafios de competitividade e produtividade.
(continua)
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[1] Na base da aplicação das OMT o BCE estará pronto para comprar títulos da dívida pública, potencialmente em quantidades ilimitadas, mas apenas de países que tenham pedido o apoio do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o FEEF, ou do Mecanismo Europeu de Estabilidade ( MEE) e tenham aceite as condições impostas.
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[1] Excertos de: Report to Congress on International Economic and Exchange Rate Policies; U.S. Department of the Treasury, Office of International Affairs, October 30, 2013
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Para ler a Parte VIII desta síntese de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

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