ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY – por João Machado

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Imagem2No ano que vai começar, passa o 70º aniversário da morte do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944). No relativamente curto percurso da sua vida, legou-nos duas obras que ainda hoje encantam quem as lê – O Pincipezinho e Voo Noturno. Nesta secção dedicada a livros, autores como Antoine de Saint-Exupéry são convidados de honra.

Em 2013 fez setenta anos que foi publicada, nos Estados Unidos, em inglês e francês, pela Reynal & Hitchcock,Imagem3 a primeira edição de Le Petit Prince O Principezinho. Foi a única a sair durante a vida do autor, que desapareceu em combate no ano seguinte, quando o avião que pilotava foi abatido no Mediterrâneo. A obra havia de ser reeditada em França em 1946, pela Gallimard, com alterações nas aguarelas de Saint-Exupéry que fazem parte integrante da obra, devido a dificuldades . Em 1999, foi possível à editora, com os meios técnicos actualmente disponíveis, reproduzir fielmente os desenhos da primeira edição. Frédéric d’Agay, no prefácio a esta edição dá-nos uma explicação bastante detalhada sobre o assunto.

 Esta obra, espantosa pela profundidade dos sentimentos nela expressos, conseguindo que uma situação tão fantástica nos toque profundamente, é sem dúvida a mais famosa do autor. Entretanto, ele escreveu outras obras de grande valor, que merecem ser recordadas. Uma delas é Vol de NuitVoo Noturno, de 1931. Com um prefácio de André Gide, esta obra conta a epopeia que foi o estabelecimento do correio aéreo na América do Sul, numa época em que a aviação ainda estava no seu início como meio de transporte em grande escala. Eram particularmente difíceis os voos noturnos, mas essenciais para tornar o avião competitivo com o caminho de ferro e os outros meios de transporte. Saint-Exupéry descreve as dificuldades enormes que os pilotos encontram e faz perceber a importância do trabalho do responsável máximo, Rivière, para fazer funcionar a rede de transporte montada. Os conflitos humanos em situações difíceis são-nos mostrados de maneira magistral, num romance de cerca de 180 páginas, com particular relevo para a necessidade da combinar o cumprimento do dever com os sentimentos e o respeito pelas pessoas. Na página 103 da edição de 1985, da Gallimard, colecção Folio, lê-se assim:

 “Pour se faire aimer, il suffit de plaindre. Je ne plains guère ou je le cache. J’aimerai bien pourtant m’entourer de l’amitié et de la douceur humaines. Un médecin, dans son métier, les rencontre. Mais ce sont les événements que je sers. Il faut que je forge les hommes pour qu’ils les servent. Comme je la sens bien cette loi obscure, le soir, dans mon bureau, devant les feuilles de route. Si je me laisse aller, si je laisse les événements bien réglés suivre leur cours, alors, mystérieux, naissent les incidents. Comme si ma volonté seule empêchait l’avion de se romper en vol, ou la tempête de retarder le courrier en marche. Je suis surpris, parfois, de mon pouvoir.”

 Esta reflexão de Rivière, só no seu gabinete, logo a seguir a ter confrontado um piloto com o facto de ele ter tido problemas com o avião por se ter assustado, e não por razões mecânicas, resume o drama interior de alguém com grandes responsabilidades numa empresa difícil. Um drama universal, que Saint-Exupéry sintetiza nestas poucas linhas, que tentamos traduzir abaixo:

“Para que gostem de nós, chega mostrar que temos pena. Eu não mostro muita pena, ou então escondo-a. Gostaria de me envolver de amizade e doçura. Um médico, no seu ofício, consegue viver assim. Mas no meu caso, tenho de assegurar que as coisas aconteçam. Tenho de moldar os homens para que eles estejam ao serviço delas. Sinto tão bem esta lei não escrita, à noite, no meu gabinete, quando examino as folhas de voo. Se me deixo ir, se deixo as coisas entregues a si próprias, então, misteriosamente, ocorrem incidentes. É como se a minha vontade, por si só, impedisse o avião de rebentar em pleno voo, ou a tempestade de atrasar o correio no seu caminho. Às vezes, fico espantado com o poder que tenho.”

1 Comment

  1. Obrigada, João Machado, por lembrar com delicadeza e respeito o querido Saint-Ex, escritor que encantou a tantos da minha geração. Outros tempos, quando a aventura, o heroísmo e nobres sentimentos ainda pareciam habitar a “Terre des hommes” D. Marcos Barbosa,, um monge beneditino, foi o responsável pela bela tradução brasileira de O Pequeno Príncipe., a singela “arte de amar” do tão inspirado piloto-escritor.

    abraço da
    Rachel Gugtiérrez

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