JUDAS – por Fernando Correia da Silva

    Judas aproxima-se do grupo. Hesita. Depois beija a face de um jovem com a barba rala. Esse o sinal combinado, esse é Jesus, pasmado fico.

             O nazareno dá um passo em frente. Os soldados correm a prendê-lo. Pedro, um discípulo, resiste, reage. Com um golpe de faca rasga a orelha de um servo de Caifás, o Sumo Sacerdote. Jesus intervém, interpõe-se, apazigua. Com um toque de dedos parece-me que sara a ferida do servo. Deixa-se levar, mansamente. Para trás fica Judas Iscariote, fico eu. Levanto um archote, seguro-lhe o braço, pergunto:

     – Porquê?

             Não responde e eu insisto:

     – Trinta dinheiros? Traição por apenas por trinta dinheiros?

             Mete a mão ao bornal. Atira as moedas ao chão. Pisa-as a pés juntos. Não, não e não! Grita que Jesus é veramente o Messias prometido. É o novo David que vem libertar Israel. Contra o jugo romano, deverá impor a sua Lei em Jerusalém. Ao fazer a denúncia, Judas quisera apenas estimulá-lo. Contava que reagisse à ordem de prisão. Esse seria o início da guerra libertadora. Mas não o fez, quedou-se na mansidão, tudo falhou. Judas precipitara-se, fora tudo fora de tempo. Agora grita, chora, geme, tenta arrancar os pelos da barba, até já sangra, bate no peito. Desvario…

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