EDITORIAL – A EUROPA, DO ATLÂNTICO AOS URAIS

Imagem2

O general De Gaule não era propriamente um progressista, pelo menos na acepção que habitualmente se costuma atribuir à palavra. Contudo, tem de se reconhecer que ele tinha uma visão bastante clara do mundo, e ideias para o futuro. No que habitualmente se designa por temas sociais, naquelas questões que hoje se designam por fracturantes, provavelmente optaria muitas vezes por posições próximas das assumidas pelos conservadores, mas o facto é que ele, em alturas chave, tomou posições importantes. Basta recordar a sua posição durante a Segunda Guerra Mundial, diametralmente oposta à de Pétain, ou em relação à guerra da Argélia, que condenou sem rebuço. Em relação à Europa, promoveu a reconciliação entre a França e a Alemanha, e preconizou indubitavelmente a aproximação à Rússia, que na altura encabeçava a URSS.

È dele o lema que serve de título a este editorial. Mesmo muitos não europeístas concordarão que a ideia merece atenção, e com certeza que não apenas por provir de De Gaule. Claro que muita gente não pensa assim. Por exemplo, Boris Johnson, mayor de Londres, cuja orientação política em muitas matérias seria talvez próxima da de De Gaule, ontem, segunda-feira, 23 de Dezembro, na sua coluna do Daily Telegraph, incita-nos a”Juntar a União Europeia à lista dos mitos em que acreditamos por nos terem sujeito a lavagem ao cérebro”, e declara-nos que a UE nos foi imposta fazendo-nos acreditar que era vital para a segurança do mundo, contra a ressurreição da Alemanha, contra o comunismo, e sugere abertamente a dissolução da União Europeia. A leitura atenta do texto mostra-nos que o autor não se preocupa em fundamentar com segurança as suas afirmações, basta olhar as referências à Alemanha. Contudo, há um aspecto que devemos prestar atenção, que é o da ideia de a UE ter sido criada para servir de bastião contra qualquer coisa, que poderia ter sido a Alemanha, o comunismo ou outra coisa qualquer.

Esta parte é mais complexa. De Gaule tinha um pensamento estratégico muito elaborado, e via como principal obstáculo ao fortalecimento da Europa a hegemonia norte-americana. Boris Johnson com certeza não vai por esse caminho, de sentido contrário às opções actuais do governo do seu país. Mas nós podemos fazer ressaltar que a questão da Ucrânia, ligada à da defesa anti-míssil, instalada na Polónia e noutros países do leste, põe em causa uma política na linha preconizada por De Gaule. Na génese da UE esteve com certeza o conflito Leste-Oeste. O prolongamento deste mantém a Europa dividida, e assegura a continuidade da influência americana, graças à sua superioridade militar. A hegemonia regional alemã é mais um obstáculo para os restantes povos europeus se unirem, assim como a ligação do Reino Unido aos Estados Unidos. Será realmente de se continuar a falar numa União Europeia?

2 comments

  1. António Gomes Marques

    Precisamos, antes de mais, de definir que União Europeia queremos: Federação ou Confederação? O que temos hoje não é uma coisa nem outra; o que parece termos, se atentarmos nos órgãos centrais criados, é uma Federação submetida aos interesses da Alemanha, em que a diversidade que fez a riqueza da Europa não é respeitada. Convém, no entanto, não diabolizar a Alemanha, que será um país rico mas em que a riqueza não estará muito bem distribuída, muito assente num tipo de produção industrial que poderá ter os dias contados e que obrigará este país a mudar de rumo, para o que não lhe faltará capacidade, a começar por uma disciplina de trabalho notável e que nós, isso sim, deveríamos imitar, sobretudo no que à gestão pertence, devendo o nosso país ser aquele que piores gestores tem.
    Fico-me por aqui dado que o que penso sobre a União Europeia necessita de um texto mais desenvolvido, embora não deixe de dizer que sou capaz de subscrever a ideia formulada por De Gaulle, talvez a única forma de nos libertarmos da hegemonia americana, que existe graças ao enorme contributo de alguns países europeus, a começar pela Grã-Bretanha.
    António.

    Gostar

  2. Pingback: BREXIT OR NOT BREXIT – THAT’S NOT THE ONLY QUESTION | A Estátua de Sal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: