EDITORIAL – A QUESTÃO EUROPEIA

 Imagem2

Joseph E. Stiglitz, num artigo de opinião publicado no Expresso de sábado passado, dia 21 de Dezembro de 2013, põe a questão de que se poderá chegar ao ponto de ter de sacrificar o euro para salvar o projecto europeu. Refere a recusa da Alemanha e de outros países de fazerem o que chamam pagar a factura respeitante aos défices do que chamam os vizinhos libertinos do sul. Por muito que se compreenda onde quer chegar Stiglitz, eminente economista e pensador, há uma questão aqui: existe realmente um projecto europeu? Sem dúvida que muita gente simpatiza com a ideia de uma Europa unida, mas em que moldes?  Não é ocioso pôr estas questões. É verdade que há mais de cinquenta anos que se anda a implementar uma estrutura a que hoje se dá o nome de União Europeia, e também é verdade que o euro, em princípio, foi criado para a reforçar. O seu fracasso, é na realidade o fracasso da União Europeia. No seu artigo, Stiglitz  indica as medidas que julga necessárias para fazer funcionar a zona euro. É preciso salientar que essas medidas, e outras igualmente necessárias, nos campos social, educacional, cultural e não só, têm falhado, ou não se encara sequer a sua introdução, por falta de vontade das entidades dominantes na vida da União Europeia e da Europa em geral.

O projecto europeu foi delineado por algumas personalidades, cujos méritos são reconhecidos por muitos, e teve o apoio de muita gente. A Europa, entendida mais como um símbolo de civilização, sempre fascinou muita gente. A ideia de que é um local de segurança e bem estar continua a atrair vagas de emigrantes, apesar da crise. Mas também teve contestatários logo desde o seu início. E entretanto o processo de consolidação das estruturas do que hoje é a União Europeia, pensado e executado a partir de cima, reforçou a desconfiança de muitos. A recusa de referendar os vários tratados que se foram celebrando, a prepotência de organismos como o BCE, que parece mais servir entidades privadas do que os interesses gerais, a dependência em relação aos Estados Unidos e a incapacidade de prevenir a chamada crise financeira abalaram a confiança de muita gente. O peso cada vez maior da Alemanha, a política dúbia de países como o Reino Unido, a falta de horizontes para as populações dos países mais afectados pela crise põem em causa para muita gente o papel da Europa nas suas vidas.

A recente eleição alemã, que deu lugar á formação de um governo de coligação CDU-SPD, que promete continuar a política de Merkel de modo intensificado, a sombra do tratado de livre comércio com a América do Norte e a competição em vários campos com outras potências mundiais, fazem com que seja importante que se discuta, para além do futuro do euro, o futuro da Europa. E que sejam os seus povos a discutir e a tomar posição.

Leave a Reply