ROBOT – por Fernando Correia da Silva

    Tareco foi o nome que dei ao robot inventado pela minha filha Dolores e um japonês seu amigo. Pois o Tareco foi dar uma curva pelo quintal e plantou-se à minha frente.

             – Eu já dei a curva. Vossa Excelência gostou?

            – Vossa Excelência? Ó meu papagaio electrónico, por acaso estás a querer gozar comigo. Vai mas é chatear o Camões!

            – Eu li Camões, chatear não sei, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

            – És muito inteligente, Tareco. Tu tens um grande cu.

            – Inteligência? Cu? Não observo conexão.

    – É uma expressão idiomática. Sabes o que isso significa?

            – Sei pois. É um idiotismo, uma comunicação particular de um idioma, neste caso o português, e sem lógica aparente.

            – Estou espantado, és um verdadeiro sabão. Portanto, ó grande idiota, vê lá se entendes o idiotismo. Tu és muito inteligente, portanto tu tens…

            – Eu sou muito inteligente, eu tenho um grande cu.

             Quando tomou consciência (um robot tem consciência?) da esparrela em que caíra, embatocou, sofreu um derrame electrónico, pico de tensão nos circuitos, começou a zanzar e a gaguejar, apagou-se. Só por causa daquela conversa tão inocente ficou duas semanas na oficina e a Dolores passou-me um raspanete. Que o cérebro dele, ou lá o que é, só está organizado para o pensamento lógico. Malícia e ardis estão fora do seu alcance. Que eu não estragasse o trabalhinho em que ela, há cinco anos, queimava as pestanas.

 

Leave a Reply